1. A Relação e a Vida Espiritual

A vida espiritual se assenta fundamentalmente sobre o amor, e este depende do caráter e do nível das relações. As relações são a trama da vida; desenvolvê-las de forma consciente e metódica é aprender a amar através de um trabalho que inclui todos os aspectos da vida e que transforma o viver em arte. Vida espiritual e arte de viver são, então, duas maneiras de se referir a uma mesma coisa. No entanto, o termo “vida espiritual” é geralmente mais associado a uma crença do que ao fato de viver, sem levar em conta que a vida de cada ser não é isolada, que vivemos em relação, não só com outras pessoas e com o meio, mas em relação com o Mundo, o tempo e o mistério de não saber quem somos, de onde viemos e para onde vamos. E, especialmente, que vivemos em relação com o princípio fundamental do Universo que chamamos o Divino ou Deus.

Quando dizemos que buscamos plenitude e felicidade expressamos a necessidade de todo ser humano de desvelar o mistério do Divino. Essa necessidade não é satisfeita com explicações do Mundo e da vida, porém incorporando o Divino à consciência de ser, isto é, em termos tradicionais: com a união com Deus. Mas na acepção tradicional, a união da alma com Deus não se vincula ao fato de que ela vive numa rede de relações que inclui tudo. A ideia de que o desenvolvimento da alma é um processo que tem lugar somente entre a alma e o Divino, abstrai o ser humano de sua realidade. A relação da alma com as almas e com o Mundo não é simplesmente um cenário onde se opera sua transformação espiritual. Pelo contrário, o desenvolvimento espiritual se faz possível quando é baseado na harmonização que se tem com todos os seres humanos e com todos os aspectos da vida.

O ser humano é inseparável do Universo: ele é em relação e vive em relação. No entanto, sua relação com o Mundo é em grande parte inconsciente; o homem só é consciente de algumas das relações, especialmente daquelas que estabelece voluntariamente.

O ser humano vive num meio tão reduzido ou tão amplo como o determine sua consciência. Como seus estados de espírito sofrem a influência de sua atitude, saúde, humor e das circunstâncias do momento, a dimensão subjetiva do meio em que cada qual se move, modifica-se continuamente. Daí que às vezes ele quer se relacionar com todos os seres – seu meio é o Universo – e outras, não quer ter relação com nada nem com ninguém – seu meio é seu eu.

Não obstante, o ser humano vive em relação, queira ou não, saiba ou não. Nenhum sistema está separado dele, senão que todo sistema existe com ele, inclui seu ser. Para alcançar uma sociedade melhor é necessário que cada homem aprenda a conviver, estabelecendo relações harmônicas.

É bom que quem busca uma sociedade melhor se conscientize de suas próprias relações e deixe de lado a crença de que sua originalidade e autenticidade como indivíduo se processam de forma isolada, fixa e abstrata. Isso o ajudará a perceber sua individualidade através da forma com que relaciona com um meio que o inclui e constitui.

A tradição espiritual ensina as bases mínimas da relação humana: não matar, não ferir, não mortificar, não prejudicar. Isto é, controlar-se para não produzir males aos demais. Além disso, ensina práticas que predispõem a aceitar o próximo: tolerância, paciência, mansidão, compaixão. Apesar de que esses preceitos indiquem somente o princípio de uma relação propriamente humana, a humanidade em seu conjunto ainda não os realizou. É nestes primeiros passos que devemos começar a tomar consciência do caráter e nível das nossas próprias relações, para compreender a tarefa de harmonizá-las e universalizá-las.

O fato de se efetuar práticas espirituais não significa adiamento espiritual se essas práticas não produzirem maior harmonia no sistema das relações. Imaginar que se está conseguindo desenvolvimento espiritual enquanto a convivência for, em muitos casos, uma situação em que cada um apenas suporte o outro, seria desvirtuar o sentido do desenvolvimento. Acreditar que se está no caminho que conduz à união com Deus, enquanto se vive de tal maneira que os demais devem praticar virtudes para poder conviver conosco é uma triste ilusão.

Conseguir relações conscientes e harmônicas exige um esforço interior e exterior. Interior porque deve ser feito um trabalho de autoconhecimento para superar a ideia de que existimos separadamente dos demais. Isso requer um controle exterior contínuo para que a conduta não separe uns dos outros e possa ser formado um laço interior inquebrantável entre o homem e todas as almas.

As técnicas de autoconhecimento, como a meditação e os exercícios ascéticos, se bem que sejam recomendáveis, não bastam para produzir um desenvolvimento real se seu objetivo se limita a alcançar uma realização separada. Para conhecer-se e harmonizar as relações deve-se aplicar na vida quotidiana a visão universal que se vislumbra nos momentos de introspecção.

A união da alma com Deus é também sua união com todas as almas e tudo o que existe. Não se pode abarcar o Cosmo sem incluir todas as suas partes, tanto as que se aceitam com gosto como as que provocam rejeição. Quem procura o infinito não pode desprezar nem ignorar, nem rejeitar o que lhe parece limitado.

A arte de viver a vida espiritual baseia-se no amor e expressa-se nas relações. Amar e relacionar-se são a mesma coisa; na medida em que as relações se fazem conscientes, faz-se consciente o amor. A qualidade das relações mostra o caráter do amor. Quando a alma se relaciona consciente e harmonicamente com sua realidade, que é tudo, seu amor também se expande e abarca tudo.

Fonte: “A Arte de Viver a Relação”
Jorge Waxemberg

Cafh – A relação e a vida espiritual

 


“Trabalhar sobre as relações é a maneira de responder ao desafio que implica nossa ignorância sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Todo esforço para responder com palavras a essas perguntas choca-se violentamente com a limitação do cérebro humano.  As relações, ao contrário, nos conectam com todos os aspectos da realidade, inclusive com aqueles que não compreendemos, e marcam vias pelas quais é possível expandir a consciência. O trabalho sobre as relações requer que tenhamos a ousadia de renunciar às ideias formadas sobre o que somos, o que sabemos e o que queremos na vida, e que nos apoiemos, por um lado, sobre a tarefa de nos relacionarmos de forma harmônica e consciente com uma área cada vez maior da realidade, e, pelo outro, sobre a fé em que, já que participamos da totalidade da existência, as respostas finais estão em nós mesmos. A experiência daqueles que remontam ao curso deste maravilhoso caminho interior mostra que isso é possível.”


– próximo –
2. Relação Possessiva e Relação por Participação

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Sobre Alexandre de Castro

Ser Humano que busca obter êxito ao praticar o altruísmo, pois aprendi que, apenas mantenho o que Dele recebo, quando compartilho com o meu igual: Você.
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