5. A Relação com a Sociedade

As relações do ser humano consigo mesmo e com a sociedade são apenas de uma mesma relação e se desenvolvem simultaneamente.

Assim como o indivíduo percorre um caminho de autoconhecimento até encontrar sua verdadeira identidade, da mesma maneira vai tomando consciência da grande sociedade humana e de sua responsabilidade por participar dela.

A relação com a sociedade abarca tantas etapas quantos graus de consciência a alma experimente. Poder-se-ia dizer que enquanto alguém está encerrado em si mesmo, espera tudo da sociedade. Depois, quando compreende que sua vida é inseparável da humanidade, descobre a relação por participação e sua responsabilidade de dar o melhor de si para o bem de todos.

Enquanto o ser humano limita sua consciência de ser ao que acontece e a seus objetivos particulares, tem uma ideia superficial e vaga de sua relação com a sociedade. Acata as normas sociais por força da lei e pelo temor ao castigo. Vive para si, separando sua vida e seus interesses dos interesses da grande sociedade humana. Nessa relação egoísta o indivíduo cria vínculos através de seus interesses. Recorre à sociedade quando dela precisa e se beneficia dela o quanto pode. Quando a sociedade o protege, chama-a “sua” sociedade.

No entanto, nessas condições, aproximar-se da grande sociedade humana, ainda que a chame “sua” sociedade, é para o ser como debruçar-se sobre o vácuo, já que está acostumado a viver nessa espécie de ninho que tece com suas relações cotidianas. Nesse ninho busca o calor e o contato e aí estabelece  seu nível de identificação.

Tão logo ele compreende que viver é uma arte que deve ser cultivada, desperta seu interesse pela sociedade, por conhecê-la e melhorá-la. No entanto, como projeta o próprio egoísmo sobre seu meio, somente vê nele seus interesses mesquinhos e luta por mudá-lo.

Esta é a etapa da ambivalência; o ser define a sociedade como “sua” sociedade ou “essa” sociedade de acordo com os altibaixos de seu acontecer, suas necessidades e seus estados de ânimo. Quando a sociedade é “sua” sociedade o ser a defende, identifica-se com ela; quando quer “outra” sociedade, ataca-a e se rebela. Alternadamente defende, ataca ou ignora a sociedade, como se ele fosse algo alheio a ela.

A sociedade não pode ser nem defendida nem atacada; não é nem “minha” sociedade nem “essa” sociedade. A sociedade simplesmente reflete o processo das relações humanas; atacar ou defender esse processo é atacar ou defender a própria alma. Essa atitude não produz bons resultados, pois se baseia na ignorância, não melhora as relações, nem torna o ser consciente de suas atitudes.

A ignorância sobre a relação com a sociedade acrescenta mais problemas aos que já se sofre e agrega mais dor às tragédias que cada ser humano padece.

Pouco adianta que nos limitemos a dizer que queremos uma sociedade justa, sem males, sem sofrimentos. Para transformar a sociedade é necessário construí-la, trabalhando sobre si mesmo e participando através de esforços concretos que produzam obras de bem.

Constrói-se uma sociedade mais harmônica através da própria transformação, já que quanto mais evoluímos no nosso próprio desenvolvimento, mais nos conhecemos a nós mesmos, mais consciente e mais simples é nossa relação com a sociedade e melhor se pode trabalhar para ela.

A relação por participação expressa a consciência de ser uno com a grande sociedade humana e implica uma atitude construtiva a respeito da própria transformação e do trabalho ativo pelo bem da sociedade.

Há três aspectos básicos na relação por participação:

  • Abandona-se a ilusão de viver uma vida pessoal particular;
  • Realiza-se primeiro em nós mesmos o bem que se quer projetar sobre a humanidade; e
  • Vai-se ao encontro das dores humanas para aliviá-las e criar vias frutíferas de amor e de conhecimento.

O homem ou a mulher que honestamente querem uma sociedade melhor sabem que sua vida não lhes pertence, que é um bem que devem oferecer a toda a humanidade. E concretizam essa oferenda de vida começando por reservar sua energia. Ao não dilapidar sua força satisfazendo seus apetites pessoais, transformam-na nas ideias e obras necessárias para cada momento.

Quando o ser humano já não tem “sua” vida, “seus” objetivos”, “sua” energia para gastar, não separa sua dor da dor dos outros, suas possibilidades das possibilidades dos outros, suas vicissitudes, das vicissitudes dos outros. Vive o que toda a sociedade humana vive, em toda a sua contingência.

Quem anseia por construir uma sociedade mais harmônica não critica, não se queixa, não escapa, não busca privilégios. Cumpre com as ações necessárias e quando observa em si algum aspecto egoísta, esforça-se por transcende-lo. Sabe que não pode pedir que outros façam o que ele mesmo não pode ou não quer fazer. Por isso começa por se capacitar para superar em si mesmo a separatividade, a indiferença e o egoísmo que descobre fora. Seu trabalho interior se expande indefectivelmente a seu redor e produz uma reação em cadeia de bons pensamentos e de boas obras.

A alma trabalha pelo bem da sociedade sem enfrentá-la, transformando-se assim numa célula benéfica que atua calada e tenazmente dentro do grande corpo social.

A atitude construtiva para com a sociedade leva o ser humano a trabalhar de forma produtiva e eficiente.

Na atualidade há grandes setores da sociedade que não dispõem do necessário para viver e se desenvolver. É indispensável então aplicar a própria energia para produzir tudo o que a sociedade necessita. Trabalhar de forma eficiente é produzir o necessário com o menor consumo, no tempo mais curto e sem acumular benefícios desmedidos.

Relacionar-se com a sociedade implica o desafio de enfrentar os aspectos negativos da conduta humana. A reação instintiva diante deles é a de defender-se atacando, para eliminá-los. Não obstante, nada pode ser eliminado; nem as perseguições, nem os castigos puderam extrair os males da sociedade. Só se pode mudar o que é contraproducente por algo melhor, através da compreensão do que está acontecendo, da educação e do esforço.

A atitude construtiva para com a sociedade leva o ser humano a se educar e a educar os demais. Quando o professor ensina, adapta-se a seus alunos e tem especial paciência com aqueles que tem ou causam dificuldades. Ele deve educá-los; jamais passaria por sua cabeça eliminá-los. Pensa-se geralmente que educar é conseguir que alguém pense ou faça algo determinado. Confunde-se educação com doutrinação. Educar é estimular o processo do desenvolvimento da consciência. É ensinar a pensar, a discernir, a escolher, é revelar o que está oculto pela ignorância.

A sociedade é formada por seres humanos em processo de desenvolvimento; os males da sociedade se fazem evidentes através de problemas que mostram somente as deficiências que devem ser corrigidas, promovendo o desenvolvimento da consciência. Isto é, aprendendo a se relacionar. Ao curar o corpo social, desaparecem os sintomas.

Os homens e as mulheres que renunciam a sua vida pessoal transformam a sociedade pelo que são, por presença. Nada esperam da sociedade, pelo contrário, sentem-se em dívida com a humanidade e oferendam suas vidas através de seus trabalhos exteriores e interiores. Não ensinam somente de cátedras e tribunais; ensinam com suas vidas, realizando em si mesmos o ideal que anseiam transmitir.

O ser humano que participa interiormente melhora sua relação com a sociedade através da reserva de energias, do trabalho sobre si mesmo e de sua colaboração ativa com obras para o bem da humanidade. Desta maneira ele encarna o ideal da realização espiritual e o põe ao alcance de todas as almas.

Fonte: “A Arte de Viver a Relação”
Jorge Waxemberg

Luiz Felipe Pondé
Você é uma pessoa líquida?

Casa do Saber
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“Trabalhar sobre as relações é a maneira de responder ao desafio que implica nossa ignorância sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Todo esforço para responder com palavras a essas perguntas choca-se violentamente com a limitação do cérebro humano.  As relações, ao contrário, nos conectam com todos os aspectos da realidade, inclusive com aqueles que não compreendemos, e marcam vias pelas quais é possível expandir a consciência. O trabalho sobre as relações requer que tenhamos a ousadia de renunciar às ideias formadas sobre o que somos, o que sabemos e o que queremos na vida, e que nos apoiemos, por um lado, sobre a tarefa de nos relacionarmos de forma harmônica e consciente com uma área cada vez maior da realidade, e, pelo outro, sobre a fé em que, já que participamos da totalidade da existência, as respostas finais estão em nós mesmos. A experiência daqueles que remontam ao curso deste maravilhoso caminho interior mostra que isso é possível.”


próximo –
5. A Relação com o Mundano

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Sobre Alexandre de Castro

Ser Humano que busca obter êxito ao praticar o altruísmo, pois aprendi que, apenas mantenho o que Dele recebo, quando compartilho com o meu igual: Você.
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