6. A Relação com o Mundano

É comum que se viva como se não se fosse morrer, como se as misérias e as necessidades não existissem, como se o amor fosse um bem a mais para desfrutar, sem necessidade de cultivar. Esta teimosa e pretensa ignorância da realidade evidente, o impulso cego em direção aos prazeres sem reparar nas consequências, a banalização do amor, é o que neste texto chamamos de “espírito mundano”.

Em todos os setores sociais se encontra a ilusão de poder desfrutar de algo sem se esforçar, de viver sem trabalhar ou de usufruir a vida sem ter nada com que se preocupar. A atração dessa ilusão é tão poderosa que muitas vezes nem mesmo tragédias e dores indescritíveis chegam a fazer com que os seres tomem consciência do quão daninhas são essas expectativas, tanto para eles como para toda a sociedade.

O ser humano deve-se manter sempre alerta para não se deixar levar pela tendência ao egoísmo e ao hedonismo, já que o mundano é uma força sempre à espreita. Ao mesmo tempo que existe no interior de cada um uma força que o impulsiona a realizar novas possibilidades, o espírito mundano tende para a inércia e a negligência como se tivéssemos o direito de gozar indiscriminadamente dos bens do Mundo sem assumir nenhuma responsabilidade por isso.

Na relação com o mundano não há trégua. Ou nos adiantamos no desenvolvimento da consciência e do amor, ou gastamos o tempo e a energia deslizando pela ladeira do egoísmo e da inconsciência. Esta não é uma imagem figurada; é o que acontece na vida da alma. O desenvolvimento espiritual não é um processo linear ascendente; são possíveis os desvios e os retrocessos. Ao menor descuido o mundanismo pode tomar a alma e fazê-la perder os frutos de seus esforços para se desenvolver.

Mesmo os seres bem intencionados devem ficar prevenidos já que não estão livres desse perigo. Não se devem confundir pensando que o mundo está somente no exterior. Pelo contrário, o mundano tem raízes em atitudes interiores e se alimenta dos pensamentos mesquinhos, dos sentimentos instintivos, das ações descomedidas; em outras palavras, alimenta-se do não querer ver a dimensão espiritual que a vida adquire quando se tem sentimentos generosos, pensamentos puros e se atua com nobreza.

O espírito mundano pode assumir aspectos sutis que conseguem enganar mesmo as almas experimentadas nas práticas espirituais.

É fácil imaginar que se transcendeu o espírito mundano pelo fato de ter uma vida ordenada, trabalhar com dedicação e ser geralmente sóbrio nos costumes. É evidente que esses hábitos são bons, mas a vida disciplinada por si mesma não libera o homem do espírito mundano. Pode-se ser asceta e mundano ao mesmo tempo. Quem tiver uma atitude egoísta, gasta na autossatisfação os frutos do trabalho metódico e da economia produzida por costumes comedidos. Vive com sacrifício e moderação durante um período; depois libera a energia através da autossatisfação e torna a começar o ciclo, alternando tempos de responsabilidade com outros de irresponsabilidade.

Reconhecer o espírito mundano e praticar certo ascetismo exterior é necessário, mas não é suficiente para superá-lo. O trabalho exterior de sobriedade nos hábitos e responsabilidade nas obrigações, deve ser acompanhado pelo trabalho interior e pela purificação dos objetivos.

O trabalho interior tem dois aspectos. Por um lado, o ser deve observar com honestidade sua atitude, olhando de frente suas tendências e escolhendo sempre o caminho da pureza e do amor. Por outro lado, deve desenvolver uma técnica de trabalho interior para controlar os impulsos instintivos com exercícios apropriados.

Os objetivos se purificam antepondo o bem de todos ao próprio benefício. O amor à humanidade orienta o uso da energia para a realização de fins generosos. Nem mesmo os momentos de descanso estão fora do objetivo espiritual da alma. O descanso orienta a energia através do relaxamento e serve para recuperar forças e ordenar os pensamentos. O lazer também não é motivo de desregramento. Aprendemos a nos divertir com atividades que enriquecem ao mesmo tempo que nos permitem relaxar. O significado do lazer se espiritualiza quando o ser humano vive se oferendando, já que encontra alegria quando proporciona alegria.

A luta contra o espírito mundano não implica a negação das satisfações e alegrias da vida. Pelo contrário, quando se supera a atração do mundano encontra-se a plenitude que a vida simples, sadia e produtiva nos oferece. Aprende-se tanto com experiências aprazíveis como com as desagradáveis, e encontra-se gozo em saber que a própria vida é um fator que promove o desenvolvimento humano.

– É saudável lembrar que nunca se está livre de cair no espírito mundano, porque a tendência a se deixar levar pelo sonho de uma vida fácil e inconsciente está presente na natureza humana. Por isso, o esforço para controlar o espírito mundano não deve ser interrompido nunca –

Fonte: “A Arte de Viver a Relação”
Jorge Waxemberg

Cotidiano


“Trabalhar sobre as relações é a maneira de responder ao desafio que implica nossa ignorância sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Todo esforço para responder com palavras a essas perguntas choca-se violentamente com a limitação do cérebro humano.  As relações, ao contrário, nos conectam com todos os aspectos da realidade, inclusive com aqueles que não compreendemos, e marcam vias pelas quais é possível expandir a consciência. O trabalho sobre as relações requer que tenhamos a ousadia de renunciar às ideias formadas sobre o que somos, o que sabemos e o que queremos na vida, e que nos apoiemos, por um lado, sobre a tarefa de nos relacionarmos de forma harmônica e consciente com uma área cada vez maior da realidade, e, pelo outro, sobre a fé em que, já que participamos da totalidade da existência, as respostas finais estão em nós mesmos. A experiência daqueles que remontam ao curso deste maravilhoso caminho interior mostra que isso é possível.”


próximo –
 7. A Relação com os Pensamentos e Sentimentos

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Sobre Alexandre de Castro

Ser Humano que busca obter êxito ao praticar o altruísmo, pois aprendi que, apenas mantenho o que Dele recebo, quando compartilho com o meu igual: Você.
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