8. A Relação com os Defeitos e as Virtudes

Pode-se distinguir didaticamente, diferentes aspectos na alma, tais como: sentimentos, pensamentos e desejos.

Chamam-se defeitos os aspectos que atrasam ou travam o desenvolvimento. As virtudes, pelo contrário, são os aspectos que ajudam a transcender as limitações e a expandir a consciência. Deste ponto de vista, os defeitos são o campo de batalha da alma e as virtudes, as ferramentas para trabalhar sobre ele.

É comum envergonhar-se dos defeitos e vangloriar-se das virtudes. Não obstante, todo aquele que deseje se desenvolver deve evitar enredar-se nesse jogo psicológico de identificação com seus compostos. Pelo contrário, deve trabalhar sobre os defeitos porque são os hábitos que fomentam a ignorância, e fortalecer as virtudes porque estas outorgam a força interior necessária para que se consiga conhecer-se a si mesmo.

Quando se começa o caminho do desenvolvimento descobre-se o bem das virtudes e, por contraposição, o mal dos defeitos. Não obstante, nós somos conscientes somente de alguns – nem sempre os fundamentais – dos próprios defeitos, e as virtudes que se acredita ter podem não ser mais do que a outra face dos defeitos. Por exemplo, o afã por trabalhar pode esconder a ambição; o desapego – a indiferença; a meticulosidade – a intransigência; a garra pode dissimular um excessivo amor-próprio. É necessário que a alma seja fiel a seu método de vida para que seu panorama interior se esclareça e possa ver a si mesmo objetivamente.

A base da relação com os próprios defeitos é a sinceridade, a paciência e a perseverança.

Na relação com os defeitos deve-se evitar os extremos. Viver aflito por causa de seus defeitos mostra uma preocupação desmedida por si mesmo e a vaidade de não aceitar a própria imperfeição. Assim como não é bom viver pendente dos defeitos, também não é bom negá-los e não fazer caso quando os demais nos apontam nossas falhas.

Quem quer cultivar a arte de viver reconhece seus próprios defeitos e aprende a usá-los como meios para participar interiormente com todos os seres humanos. Trabalhar para superar os defeitos e, ao mesmo tempo, aceitá-los como próprios da condição humana, leva-nos a aceitar cada ser da forma como se expressa. A experiência no trabalho com as imperfeições pessoais capacita-nos a ajudar e acompanhar os outros em seu esforço para compreender e superar a si mesmos. O trabalho espiritual sobre os defeitos os transforma em meios que propiciam o desenvolvimento e a participação.

Quanto mais consciente se é, maior a sinceridade com que se olha a si mesmo. É frequente que alguém chegue a se sentir angustiado diante do acúmulo de defeitos que se fazem evidentes para ele, e das poucas virtudes de que pode se valer para realizar seu ideal. Para não cair no desalento deverá centrar seu esforço em um de seus defeitos mais contraproducentes e ir caminhando passo a passo, estimulado por seus pequenos triunfos.

Se bem que seja fundamental a paciência para superar os defeitos, é animador saber que não é preciso lutar contra todos os defeitos ao mesmo tempo. Um defeito grave gera muitos outros que se manifestam em diferentes situações da vida. Trabalhar sobre um defeito ajuda a superar outras imperfeições que aparecem de forma isolada. O egoísmo, por exemplo, pode gerar indiferença, insensibilidade, impaciência. Quando se trabalha sobre o egoísmo, imperceptivelmente vai-se superando a indiferença e os outros defeitos a ela relacionados.

Por mais que se dominem os defeitos, nunca se deve pensar que eles foram suprimidos totalmente; pelo contrário, deve-se perseverar no esforço e manter-se prevenido a respeito das nossas próprias tendências para não voltarmos a cair nos mesmos erros.

A base da relação com nossas próprias virtudes é a humildade e a responsabilidade.

A humildade mostra que o afã de se manifestar as próprias virtudes é ter o defeito de se mostrar superior aos outros. Seria contraproducente usar-se as boas qualidades para fortalecer o amor-próprio. Todos os seres humanos tem boas qualidades; se alguém descobre algumas em si mesmo não deve considera-las como se fossem jóias; num estado harmônico nada se destaca de forma independente.

A relação com as virtudes deve ser baseada na responsabilidade, pois as boas qualidades são dons por cujo uso se é responsável. A virtude une os seres; não os separa entre melhores e piores.

As virtudes são o ponto de apoio com que se conta para desenvolvermos nossa consciência e assistir a humanidade. Quando a virtude não é cultivada nós a perdemos como ferramenta e se desperdiçam as possibilidades que podem ser realizadas através dela. Uma virtude tão bela como a paciência, por exemplo, pode-se transformar em indiferença se for usada como meio para não sermos feridos pelos demais ou pelas circunstâncias. Por outro lado, bem cultivada, a paciência é a maneira de se responder de forma positiva a estímulos dolorosos. Em vez de reagirmos agredindo ou encerrando-nos em nós mesmos, a virtude da paciência dá lugar a que se aprenda a aceitar, a amar e a transformar circunstâncias difíceis em meios para irradiar paz e ajudar os outros de forma efetiva.

Quando o ser humano se faz responsável por suas virtudes, torna-se maleável e flexível, pronto a modificar-se para seu bem e para o bem dos outros, disposto a aceitar suas deficiências e a compartilhar suas qualidades.

O trabalho espiritual sobre os defeitos e as virtudes acaba com a dicotomia virtude-defeito e revela que ambos são dois aspectos de um mesmo esforço. A aceitação dos defeitos como inerentes à condição humana transforma-se em meios de participação, compreensão e tolerância. A consciência das virtudes como meios de trabalho protege-nos da cegueira interior produzida pela soberba e pela vaidade. A sinceridade no reconhecimento da própria inferioridade é o motor que dá impulso ao voo espiritual. A aceitação humilde das boas qualidades revela o potencial que existe em todos os seres humanos e os estimula a ajudar os demais a realizarem suas melhores possibilidades.


Fonte:
“A Arte de Viver a Relação”

Jorge Waxemberg

Thais Alves – Todos têm qualidades e defeitos


“Trabalhar sobre as relações é a maneira de responder ao desafio que implica nossa ignorância sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Todo esforço para responder com palavras a essas perguntas choca-se violentamente com a limitação do cérebro humano.  As relações, ao contrário, nos conectam com todos os aspectos da realidade, inclusive com aqueles que não compreendemos, e marcam vias pelas quais é possível expandir a consciência. O trabalho sobre as relações requer que tenhamos a ousadia de renunciar às ideias formadas sobre o que somos, o que sabemos e o que queremos na vida, e que nos apoiemos, por um lado, sobre a tarefa de nos relacionarmos de forma harmônica e consciente com uma área cada vez maior da realidade, e, pelo outro, sobre a fé em que, já que participamos da totalidade da existência, as respostas finais estão em nós mesmos. A experiência daqueles que remontam ao curso deste maravilhoso caminho interior mostra que isso é possível.”


próximo –
9. A Relação com os Problemas e as Dificuldades

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Sobre Alexandre de Castro

Ser Humano que busca obter êxito ao praticar o altruísmo, pois aprendi que, apenas mantenho o que Dele recebo, quando compartilho com o meu igual: Você.
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