10. A Relação com o Corpo

Se bem que se referir ao corpo como um separado implique uma divisão arbitrária, estabelece-se de fato uma dicotomia e uma relação entre nós e nosso corpo através das decisões que tomamos acerca de como cuidá-lo,  como usá-lo e, mesmo, como entendê-lo.

Para que a relação da alma com o corpo seja construtiva deve-se basear na responsabilidade e no autocontrole.

Cada um de nós é responsável por sua energia, tanto a nível pessoal como social. A reserva de energias, no entanto, não é um fim em si mesmo. De nada valeria exercer grande controle sobre o corpo, se depois não se soubesse orientar bem a energia que se gera com esse controle. O que fazer com a energia é tão importante como aprender a reservá-la. A reserva de energia deve se transformar em um bem pessoal e social.

A responsabilidade é pessoal porque o tempo de vida útil do corpo pode ser encurtado de forma significativa se não se presta atenção aos próprios hábitos de vida. Cada qual é responsável por fazer que seu corpo renda todo o potencial de que é capaz.

A responsabilidade tem uma dimensão social porque o que fazemos com nosso corpo afeta a sociedade. Se o corpo for usado sensatamente, transforma-se num elemento social construtivo. Não obstante, se satisfazermos todos os nossos desejos e seguirmos nossos impulsos sem discerni-los nem levar em consideração os efeitos que possam ter sobre nosso corpo, corremos riscos desnecessários, seja expondo-nos a acidentes seja contraindo moléstias crônicas ou incapacitantes. Cedo ou tarde nos transformamos numa carga para os demais, e os outros tem que assumir as consequências da nossa própria irresponsabilidade.

Consagrar a vida a efetuar obras de bem não nos exime da responsabilidade sobre o nosso corpo. Ajudar os outros é louvável, mas não justifica a falta de controle pessoal, de conhecimento ou de atenção para erradicar hábitos que nos predispõem a sofrer doenças e incapacidades que podem ser prevenidas.

O que nós oferendamos nós o retomamos com juros se, por imprudência ou falta de controle pessoal, nosso corpo se torna inválido ou adoece prematuramente, obrigando outras pessoas e instituições a gastar seu tempo e recursos para atender nosso corpo durante os anos que sobrevivermos.

O controle permite a reserva da nossa própria energia. O domínio das paixões e da tendência à autocomplacência dá ao ser humano o caudal de energia de que necessita para poder se desenvolver. A preguiça leva à excessiva comodidade e ao descontrole nas expressões corporais. A gula é uma deformação da necessidade de alimento. Os impulsos sexuais e agressivos são manifestações inconscientes do instinto de conservação. Aquele que domina os instintos pode distinguir com clareza suas possiblidades e decidir sobre suas opções na vida.

A preocupação exagerada com o próprio corpo e o temor do sofrimento físico são as primeiras barreiras a serem superadas em relação ao corpo, porque, em vez de o corpo ser seu instrumento, a alma se põe a serviço dele. Um corpo mimado obriga a alma a se subordinar a ele e a viver pendente de suas sensações. O temor de sofrer diminui a resistência física e a capacidade de tolerar os transtornos e a dor. Por outro lado, tratar o corpo como um instrumento, prestando-lhe o cuidado de que necessita sem mimá-lo nem debilitá-lo, desenvolve a força da alma e a faz menos suscetível ao sofrimento.

Para manter o corpo com boa saúde é necessário fixar limites às solicitações que vão mais além do necessário e do sensato. Se é obsequiado em excesso, o corpo se faz um tirano. Se o atendemos e treinamos para trabalhar e render, revela-se um meio eficaz para o desenvolvimento interior.

Para cuidar do corpo não é preciso que lhe dediquemos tempo nem recursos extraordinários. Pelo contrário, a autodisciplina sensata e o conhecimento fazem com que a razão prepondere sobre os impulsos e que o corpo seja mantido dócil, saudável e útil.

A autodisciplina sensata no cuidado do corpo permite que não se caia no extremo de descuidá-lo nem de transformá-lo no principal centro de atenção e de preocupações.

O conhecimento acerca do cuidado do corpo torna possível responder as suas necessidades reais e evitar enfermidades e acidentes ocasionados por ignorância. Por outro lado, quando não podemos evitar a doença, devemos aceitá-la e usá-la com proveito espiritual enquanto nos esforçarmos para superá-la.

Há os que sofrem intensamente por motivos banais e corriqueiro: fazer aniversário, um pouco mais de cabelos brancos, uma pequena moléstia física, uma doença passageira. Querendo ajudá-los, pessoas de boa vontade perguntam a si mesmas: por que tanto conflito e dor se eles tem tudo de que necessitam? Nesses casos é bom observar o grau de identificação com o corpo. Acontece muitas vezes que reduzimos nossa própria visão da vida àquilo que esperamos de nosso corpo; que nos sintamos superiores ou diminuídos de acordo com nossa crença em que nosso corpo é bonito ou feio; que nos julgamos úteis ou inúteis dependendo de como nosso corpo responde as nossas vontades; que também classifiquemos os demais por suas características exteriores.

Tudo isso traz sofrimento e confusão. Quando o impulso à autocomplacência prevalece sobre o amor real, a solidão e a falta de sentido entranham-se na alma, ainda que “ela tenha tudo”.

Centralizar a atenção no corpo condiciona o ser humano de tal maneira que liga seu valor pessoal a sua aparência e estado físico. Pode chegar a subordinar os valores espirituais ao prazer físico e o estado da alma à condição do corpo.

Centralizar a atenção no corpo conduz-nos a associar o êxito com o esplendor do corpo. Enquanto o corpo físico se desenvolve e aumenta suas forças, o ser se sente pleno de possibilidades e com anseios de realizar uma vida significativa. Ao contrário, quando o corpo adoece, decai ou envelhece, imagina que se acabaram suas possibilidades e mergulha no desalento e na tristeza.

Quando o ser humano centraliza sua vida em seu corpo ninguém pode aliviá-lo. Só ele mesmo pode superar seu sofrimento mudando o enfoque de sua vida.

A relação com as mudanças que o corpo experimenta através do tempo contém ensinanças que precisamos compreender para alcançarmos o desenvolvimento espiritual.

O corpo físico cresce, amadurece, decai e morre. O bom exercício da relação com estas mudanças é um dos aspectos básicos do trabalho interior, para que se compreenda o sentido da vida e da morte e para que se expanda o objetivo da própria vida.

É necessário desenvolver o discernimento para não transformar a deterioração física numa tragédia. As realizações materiais não são o único fim do ser humano; além de concretizar seus objetivos exteriores, ele deve expandir o significado de suas experiências, compreender a vida em seu conjunto, e dar sentido a sua vida ao longo de toda a sua trajetória, tanto no princípio como no fim. Se aceitamos de antemão a lei da vida, se nos habituamos a controlar as paixões e a pôr limite aos próprios apetites, quando o corpo começa a declinar, damos passagem aos mais jovens para que assumam nosso lugar, enquanto concentramos nossa energia no trabalho mental e espiritual, sem deixar por isso de nos esforçarmos em usar o corpo e mantê-lo tão ágil como nos for possível.

O controle e a responsabilidade no uso da própria energia ajudam-nos a cuidar do corpo com senso comum, a nos distanciarmos dos objetivos materiais e a compreender a transitoriedade dos bens exteriores.

Ao não se centrar em seu corpo e ao trata-lo como um bem pelo qual é responsável, o ser humano aprende a enfrentar a morte com serenidade. O não saber quando deverá morrer o leva a não desperdiçar seu tempo e a concentrar sua energia na realização de seu ideal.

Fonte: “A Arte de Viver a Relação”
Jorge Waxemberg

Adeus ao corpo?


“Trabalhar sobre as relações é a maneira de responder ao desafio que implica nossa ignorância sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Todo esforço para responder com palavras a essas perguntas choca-se violentamente com a limitação do cérebro humano.  As relações, ao contrário, nos conectam com todos os aspectos da realidade, inclusive com aqueles que não compreendemos, e marcam vias pelas quais é possível expandir a consciência. O trabalho sobre as relações requer que tenhamos a ousadia de renunciar às ideias formadas sobre o que somos, o que sabemos e o que queremos na vida, e que nos apoiemos, por um lado, sobre a tarefa de nos relacionarmos de forma harmônica e consciente com uma área cada vez maior da realidade, e, pelo outro, sobre a fé em que, já que participamos da totalidade da existência, as respostas finais estão em nós mesmos. A experiência daqueles que remontam ao curso deste maravilhoso caminho interior mostra que isso é possível.”


próximo –
11. A Relação com a Responsabilidade

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Sobre Alexandre de Castro

Ser Humano que busca obter êxito ao praticar o altruísmo, pois aprendi que, apenas mantenho o que Dele recebo, quando compartilho com o meu igual: Você.
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