11. A Relação com a Responsabilidade

O ser humano é parte de um sistema universal de relações; todos os aspectos de sua vida – suas ações, seus pensamentos, seus sentimentos – influem sobre a realidade circundante.

Gandhi, um ser humano pobre e aparentemente frágil, influenciou milhões de pessoas simplesmente através de jejuns. A ação imprudente de um capitão de navio desencadeou uma catástrofe ecológica que afetou famílias, indústrias e áreas imensas de terras e de águas virgens. Esses exemplos, ainda que dramáticos, dão ideia da influência, positiva ou negativa, das ações individuais sobre o Mundo todo.

Nem sempre são óbvios para o ser humano os efeitos de sua atuação sobre o meio. Em alguns casos por ignorância, em outros por indiferença ou mesmo deliberadamente, não analisa com suficiente honestidade e profundidade as consequências de seus atos. No entanto, nenhuma ação é intranscendente; se um fato fortuito, como a queda de uma árvore, pode mudar o curso de um rio, não é difícil compreender que as ações individuais, carregadas com a força da intenção e da vontade, afetam o meio e a sociedade.

Se bem que, do ponto de vista espiritual, cada um de nós é responsável por sua influência sobre o Mundo, a compreensão e a aceitação desta responsabilidade depende do próprio desenvolvimento.

A responsabilidade assume-se gradualmente. Nos primeiros anos de vida a criança nem sequer pode cuidar de si mesma. À medida que cresce vai adquirindo responsabilidades e, quando adulto, a sociedade espera que se encarregue de sua vida e de sua família. No entanto, não é a sociedade que determina os limites da responsabilidade do ser humano. Ele tanto pode frustrar as expectativas sociais mínimas, como ir muito além do que qualquer um possa lhe pedir, e oferendar sua vida pelo bem de todos.

A responsabilidade tem três aspectos: o individual, o social e o espiritual.

A responsabilidade individual define o que alguém faz com sua vida. Por muito que se possa fazer por uma pessoa, não se pode viver nem morrer por ela. Cada um recebe os frutos, doces ou amargos, de suas decisões e até de suas indecisões. Em definitivo, é cada um que vive suas experiências, que realiza ou não suas possibilidades e marca seu destino.

De um ponto de vista específico, a responsabilidade individual implica produzir pelo menos o que se consome, utilizar com discernimento o tempo e a energia e responder pelos bens que se recebe.

Como o sentido de responsabilidade individual é muito subjetivo, dá lugar a interpretações que, em muitos casos, não respondem aos requerimentos sociais. Neste texto vão ser assinaladas duas formas de se interpretar a responsabilidade, que criam problemas no desenvolvimento do ser humano e da sociedade: a responsabilidade intermitente ou esporádica e o abuso do patrimônio social.

A responsabilidade intermitente ou esporádica leva a reduzir a responsabilidade a um pequeno número de obrigações exteriores e a acreditar que se é livre para proceder à vontade acerca de tudo o mais, mesmo de forma obviamente irresponsável. Por exemplo, ser responsável no trabalho e descuidado na vida particular, cuidar dos filhos quando se está casado e abandoná-los em caso de divórcio; sobrecarregar os filhos com cuidados extremados e descuidar ou desamparar os pais idosos.

O sentido de responsabilidade esporádica também se expressa em aspectos que, apesar de parecer secundários, não deixam de ter grande influência na vida das pessoas. Por exemplo, o tratamento que se dispensa aos demais influi sobre o ambiente em que se vive todos os dias. Pode-se ser cortês com alguns e descontrolado com outros; ser comedido no trato pessoal, mas imprudentemente e agressivo atrás de um volante; cuidadoso com os próprios pertences e descuidado com o que se considera alheio. É óbvio que esta maneira de entender a responsabilidade individual cria inúmeros conflitos e faz com que a relação com os demais se torne difícil.

O abuso do patrimônio social é especialmente injustificável em pessoas devidamente instruídas, capacitadas a desempenhar um papel significativo na vida, mas que não assumem a responsabilidade que se poderia esperar de quem tanto recebeu. Talvez sejam hábeis para assinalar tudo o que deveria ser feito para que se consiga um mundo melhor, mas na prática se conduzem de forma egoísta ou desatinada e, em muitos casos, outros tem que se encarregar de suas necessidades e resolver os problemas criados por sua falta de discernimento.

Pelo simples fato de viver em sociedade, cada qual desfruta do tesouro criado pelo esforço de inumeráveis seres que com sua contribuição enriqueceram a humanidade ao longo da história. A tradição espiritual, o conhecimento e as técnicas, os progressos materiais, são bens que cada um recebe sem ter que fazer mais esforço que o de apreendê-los. Isto implica uma responsabilidade individual ineludível.

Todo ser humano tem o direito de desfrutar o patrimônio da sociedade; mas esse direito vem acompanhado da obrigação de enriquecê-lo e aumentá-lo.

O segundo aspecto da responsabilidade é o social, que o estimula a se comprometer na melhoria da sociedade. O homem se esforça para produzir mais do que necessita para satisfazer suas necessidades e deixa o excedente para sustentar os que não estão em condições de se auto-abastecer: crianças, enfermos, anciãos, desvalidos. Por pouco dotada que uma pessoa se considere, sua capacidade de trabalho aumenta na medida em que expande seu sentido de “ser em sociedade”, já que o amor e o interesse multiplicam a eficiência.

Para que a sociedade funcione harmonicamente é necessário que cada qual compartilhe não somente seus bens mas também seu talento. A sociedade necessita dos dons de todos os seus integrantes. A capacidade de criar, de descobrir possibilidades onde outros não as veem, de multiplicar o rendimento dos recursos deve beneficiar todos. Ninguém duvida que descobrir como curar uma doença é um bem que deve ser compartilhado. Assim como o cientista que descobre uma vacina a coloca a serviço de todos, cada um teria que oferecer os frutos de seus dotes pessoais, quaisquer que sejam eles.

Pode acontecer  que por excesso de zelo se desvirtue o sentido da responsabilidade social. Muitas pessoas generosas e esforçadas – pais, mestres, pregadores – sentem-se responsáveis por aqueles que, segundo suas opiniões ou crenças, estão equivocados ou espiritualmente perdidos. Essas pessoas às vezes dão belos exemplos de sacrifício pessoal, dedicando-se com grande empenho a promover mudanças sociais, ou a pregar e converter outras pessoas. No entanto, acreditar que tem o direito de obrigar alguém a viver de uma maneira determinada, ou a acreditar em certas ideias é uma forma arrogante e dogmática de entender a responsabilidade social, já que não reconhecem a liberdade da alma. Não pode haver responsabilidade social sem respeito pelo livre-arbítrio do ser humano.

O terceiro aspeco da responsabilidade é o espiritual ou, em outras palavras, a responsabilidade pelo destino humano.

Quando a alma se desenvolve chega o momento em que vai ao encontro da responsabilidade. Não se detém no mero cumprimento de seus deveres explícitos, senão que abarca novas e crescentes responsabilidades consigo mesma, com a sociedade, com o destino humano. Muitas pessoas assumem responsabilidades por ambição e vaidade: quanto não se poderia fazer por amor!

O anseio por alcançar um amor real expande a visão interior e amplia a responsabilidade, impulsando o ser humano a dar cada vez mais de si mesmo, a ser melhor, a consolar, a participar. Seu ideal se atualiza constantemente, como um horizonte que se desloca na mesma medida em que se avança para ele.

O ser humano começa a assumir sua responsabilidade espiritual quando não só se faz responsável por suas ações como também pela atitude com que nutre seus sentimentos e pensamentos.

Os pensamentos e sentimentos se purificam mudando-se o hábito instintivo de defesa e de agressão pelo hábito de compreensão, amor e participação.

A responsabilidade espiritual completa o caminho da alma. Ela parte de um estado de consciência no qual só vê a si mesma, e seu senso da responsabilidade individual se limita a seus interesses pessoais. Pouco a pouco, através de sua experiência e esforço para se relacionar e comunicar, começa a sair de sua reclusão egoísta e vai incluindo a sociedade em sua rotina.

Essa expansão lhe permite ver a pequenez de sua problemática habitual dentro do âmbito do sofrimento coletivo. Vê também que suas boas obras são suplantadas pela influência de seu egoísmo. Por um lado trabalha pelos demais e por outro, sua separatividade continua produzindo dor e miséria. Compreende que não pode resolver fora o que não superou em sua própria vida. Este despertar representa um passo imenso em seu desenvolvimento. Sabe que não é suficiente esforçar-se para criar um mundo melhor se não superar o egoísmo que causa miséria; que não é suficiente desejar que as guerras e a violência acabem enquanto não se terminar com a violência que existe dentro de nós; que não existe união entre os seres humanos enquanto houver separatividade no coração.

Ao assumir a responsabilidade espiritual o ser humano retorna ao ponto de onde partiu: seu interior; mas sua visão e sua atitude mudaram totalmente. No princípio de sua peregrinação o mundo interior era um refúgio de seu egoísmo; agora é o campo de trabalho para aprender a participar e a amar. Sua responsabilidade total expande sua consciência e sua tarefa espiritual se integra.

 

A alma realiza em sua própria vida aquilo que quer conquistar para o Mundo. Seu trabalho exterior reflete sua participação interior, e seus esforços dão frutos nobres e duradouros para o Mundo.

Fonte: “A Arte de Viver a Relação”
Jorge Waxemberg

Filme para Treinamento – Accountability – Pegar para si a responsabilidade!


“Trabalhar sobre as relações é a maneira de responder ao desafio que implica nossa ignorância sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Todo esforço para responder com palavras a essas perguntas choca-se violentamente com a limitação do cérebro humano.  As relações, ao contrário, nos conectam com todos os aspectos da realidade, inclusive com aqueles que não compreendemos, e marcam vias pelas quais é possível expandir a consciência. O trabalho sobre as relações requer que tenhamos a ousadia de renunciar às ideias formadas sobre o que somos, o que sabemos e o que queremos na vida, e que nos apoiemos, por um lado, sobre a tarefa de nos relacionarmos de forma harmônica e consciente com uma área cada vez maior da realidade, e, pelo outro, sobre a fé em que, já que participamos da totalidade da existência, as respostas finais estão em nós mesmos. A experiência daqueles que remontam ao curso deste maravilhoso caminho interior mostra que isso é possível.”


próximo –
11. A Relação com as Ideias

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Sobre Alexandre de Castro

Ser Humano que busca obter êxito ao praticar o altruísmo, pois aprendi que, apenas mantenho o que Dele recebo, quando compartilho com o meu igual: Você.
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