13. A Relação com a Vida

O ser humano se relaciona com a vida através de suas experiências. Quanto mais consciente for essa elação, melhor ele se compreende a si mesmo e entende suas experiências.

O tipo de relação que estabelecemos com nossas experiências determina a dimensão que damos às nossas vidas. Dessa maneira, pode-se reduzir a vida a sofrer com o que nos acontece ou ver nela nossa possibilidade de desenvolver continuamente nosso estado de consciência.

Já que o significado e o fruto das experiências derivam do grau de consciência adquirido, para aprofundar a relação com a vida é necessário expandir o estado de consciência. Em outras palavras, o ser humano deve redefinir constantemente o que sua vida constitui para ele, até que esse termo – vida – abarque toda a realidade.

Quando a expressão “minha vida” se reduz ao que acontece no pequeno núcleo de interesses pessoais, a relação com a vida é a relação com a circunstância pessoal. Quando “minha vida” inclui a sociedade circundante, a relação com a vida se expande até incluir essa sociedade. Quando “minha vida” é toda a realidade que o ser humano pode apreender com sua consciência, a relação com a vida abarca toda a humanidade e o Universo.

Em termos práticos, que diferenças existem entre esses níveis de definição e o que é “minha vida”?

Quando a visão da vida se reduz à circunstância pessoal, o ser humano se identifica com o que acontece, teme o futuro, aferra-se ao que possui e aprofunda sua ignorância. Quando as experiências lhe trazem sofrimento, sua relação com a vida lhe produz amargura, ressentimento e o torna pessimista. Importa-lhe o que os outros sofrem na medida em que isso possa repercutir em seu próprio âmbito. Encara os males coletivos como se pertencessem a uma realidade alheia. Sofre, como se fossem uma tragédia pessoal, problemas gerais ou derivados de fatos naturais. O infortúnio o toma de surpresa e o leva a pensar que a vida não tem sentido. Ainda que não sofra nada em particular e tenha tudo, pode chegar a crer que sua vida não tem sentido, já que dentro de sua redoma não sabe o que fazer com os dons que possui. Ao invés disso, um êxito pessoal, ainda que momentâneo, pode fazê-lo sentir que a vida está plena de significado. Sua ideia da felicidade é a ilusão de escapar das leis da vida: não enfrentar a adversidade, a incerteza, o declínio e a morte.

Uma relação harmônica com a vida dá uma visão universal que inclui ao mesmo tempo o que é particular e o que é geral, o pessoal e o horizonte da realidade; isto permite distinguir entre os aspectos da vida que podem ser controlados e aqueles que a vontade humana não pode dominar.

Quando nós nos relacionamos conscientemente com a vida, aceitamos o que nos acontece como um meio de participação, em vez de interpretá-lo como maldição em alguns casos e privilégios em outros. Aceitamos cada experiência como parte inseparável de um devenir que é universal, social, familiar e pessoal. Assim, localizamos nossas experiências dolorosas dentro do sofrimento de toda a humanidade e descobrimos a felicidade no bem de todos.

Quando padece uma dificuldade, em vez de reagir contra a vida como se fosse injusta, o ser tem presente que, como todos os seres humanos, está sujeito à incerteza do futuro, ao declínio e à morte. E também tem presente que nem tudo o que sofre é devido à vida. Muitos de seus problemas provêm de sua própria conduta. Para não reincidir nos mesmos erros recorda a história humana e seu próprio passado, enfrenta os resultados das decisões que tomou e prevê as consequências daquelas que vai tomar. Essa atitude gera paz, bem-estar, riqueza.

A maneira como cada um orienta sua vida depende de seu marco de referência. Se vivemos como se os limites do Mundo não se estendessem para além de nossos interesses quotidianos, nós nos desconectamos da realidade, não conseguimos compreender nossas experiências e tomamos decisões sem dar-nos conta de como elas repercutem sobre o conjunto.

Se, em vez disso, nos vemos como parte integrante de uma totalidade, em lugar de pedir, aprendemos a dar, em lugar de querer ganhar aprendemos a atuar desinteressadamente, em lugar de querer dominar os outros centramos nosso esforço em dominar a nós mesmos para integrar-nos conscientemente no Mundo e na vida através de uma participação total.

Virtudes como a humildade, o desapego, a participação e a reverência ajudam a expandir a relação com a vida.

A humildade dá consciência da própria limitação e ajuda a reconhecer que a visão que se tem da realidade é parcial e temporária. Isso leva a aprender com tudo e com todos.

O desapego dá consciência da temporalidade da vida individual. O afã de possuir transforma a relação com a vida numa luta conra o tempo, porque nenhum bem exterior ao ser é permanente. O desapego aos frutos do esforço permite que não se dependa do que é exterior e transitório e se descubra a eternidade no contínuo devenir.

A participação proporciona consciência da condição da humanidade, ajuda a estender o limite do que é pessoal e a incorporar-nos a nós mesmos à realidade circundante.

Este processo integra o que é particular com o geral e dá unidade à vida.

A reverência ao que transcende a compreensão humana proporciona a consciência das possibilidades reais. A reverência ao Divino mantém a alma aberta e permeável à mensagem da vida, serve para melhorar sua interpretação dos fatos e permite expandir sua visão da realidade.

Na medida em que harmonizamos nossa vida particular com nossa visão global da vida, vamos compreendendo as etapas de nossa própria vida e a ensinança dos momentos de dor e da felicidade; distinguimos entre uma alegria momentânea, produto de experiências passageiras, e a paz e felicidade duradouras que nascem da compreensão, da aceitação e da participação. Perceber a mensagem de cada experiência dá unidade à própria vida e a orienta para a realização do ideal espiritual. Da mesma maneira, a integração da vida individual com a universal desperta na alma um sentido de eternidade.

Quanto mais harmônica a relação com a vida, mais profunda é a compreensão de sua mensagem, até que a alma, a vida e o Divino se revelam como uma unidade.

É bom adquirir o hábito de recordar aspectos da vida que não temos presentes nos acontecimentos quotidianos. Por exemplo, que tudo é transitório. Padecemos uma dor, porém ela tem um fim. Uma realização é um passo indiscutível, mas os desafios continuam. Este exercício permite dimensionar as experiências para que estas não desfigurem a visão da vida. Ensina também a superar a dor e a desmascarar as ilusões que afastam a alma da realização de suas melhores possibilidades.

Fonte: “A Arte de Viver a Relação”
Jorge Waxemberg

A Árvore da Vida (The Tree of Life) 2011 Trailer Official Legendado HD


“Trabalhar sobre as relações é a maneira de responder ao desafio que implica nossa ignorância sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Todo esforço para responder com palavras a essas perguntas choca-se violentamente com a limitação do cérebro humano.  As relações, ao contrário, nos conectam com todos os aspectos da realidade, inclusive com aqueles que não compreendemos, e marcam vias pelas quais é possível expandir a consciência. O trabalho sobre as relações requer que tenhamos a ousadia de renunciar às ideias formadas sobre o que somos, o que sabemos e o que queremos na vida, e que nos apoiemos, por um lado, sobre a tarefa de nos relacionarmos de forma harmônica e consciente com uma área cada vez maior da realidade, e, pelo outro, sobre a fé em que, já que participamos da totalidade da existência, as respostas finais estão em nós mesmos. A experiência daqueles que remontam ao curso deste maravilhoso caminho interior mostra que isso é possível.”


próximo –
14. A Relação com a Vocação

Anúncios

Sobre Alexandre de Castro

Ser Humano que busca obter êxito ao praticar o altruísmo, pois aprendi que, apenas mantenho o que Dele recebo, quando compartilho com o meu igual: Você.
Citação | Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

You are free to comment

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s