14. A Relação com a Vocação

A vocação se expressa no sentido que damos a nossa própria vida e é descoberta quando buscamos, mais além das frases feitas e dos moldes adquiridos, respostas a perguntas fundamentais como “quem sou eu, de onde venho, para onde vou?” Por isso é preciso destacar que esta ideia de vocação não corresponde à acepção que geralmente lhe é dada, de inclinação natural ou de aptidão para fazer algo.

As pessoas diferem no tipo e grau de aptidões que possuem; trabalham com facilidade em certas áreas e encontram dificuldade em outras. Bem poucas tem aptidão para tudo, e isso faz com que cada uma se incline para o que lhe é mais fácil efetuar. Quanto mais trabalha naquilo para o que tem aptidão, melhor o domina e quanto mais se capacita no que faz, mais plena se sente.

Isso leva a dizer que tal pessoa tem vocação para a arte, para a ciência, ou para qualquer outro tipo de atividade. Mas, uma coisa é a aptidão para se ocupar de alguma coisa, e outra, a capacidade de se desenvolver integralmente como ser humano. Pode-se ter um desempenho excelente numa atividade e, no entanto, ser principiante na arte de viver, não compreender as próprias experiências nem as relações.

Capacitar-se para alguma coisa conduz a uma ocupação. A vocação, por outro lado, implica o desenvolvimento do ser humano como uma unidade.

A vocação não é mais uma opção num leque de atividades possíveis; é o que dá sentido a toda atividade que produza não só o desenvolvimento de habilidades, mas do ser humano integral.

Mesmo que cada pessoa tenha aptidões diferentes, todas tem capacidade para desenvolver sua consciência. Todos os seres humanos, então, tem vocação, potencialmente, mas cada um desperta para ela através de um processo de conhecimento interior que leva tempo e exige esforço. Uma pessoa atualiza sua vocação quando responde de maneira efetiva a sua necessidade de expandir sua consciência.

A relação do ser humano com sua vocação expressa o grau de harmonia entre suas atividades quotidianas e o significado total que ele dá a sua vida.

Podem-se distinguir três etapas na relação com a vocação:

  • A primeira etapa é a de descoberta;
  • A segunda é a de discernimento; e
  • A terceira etapa é a de integração.

A primeira etapa começa quando descobrimos que viver é uma arte, que não temos necessariamente que percorrer caminhos traçados pelos outros, que podemos trabalhar no conhecimento de nós mesmos e forjar nosso próprio destino em relação a uma realidade que transcende nossos objetivos imediatos. Desperta-nos o interesse por temas novos, não vinculados ao desejo de alcançar posições, possuir mais bens e sentir mais prazeres, senão o interesse em alcançar paz interior, melhor compreensão e, especialmente, o interesse em dar sentido à nossa vida.

Se bem que este passo abra um vasto campo de experimentação e de descoberta, também marca uma divisão entre os interesses relacionados com a vida habitual do ser humano e aqueles da nova vida que vislumbra em seu interior: o que é material, por um lado e o espiritual por outro. Essa dualidade que criamos com nossa atitude é boa em princípio, porque nos dá a força do dogmatismo para mudar nossos hábitos e orientar nossos esforços para um fim mais nobre e transcendente do que o da auto-satisfação.

Na segunda etapa o ser humano compreende que a contraposição entre seu ideal e a vida quotidiana não é real, que a dicotomia é ignorância; mas ainda não sabe como integrar as duas forças opostas que o movem: seus verdadeiros anseios por um lado e sua natureza instintiva pelo outro. Nem a euforia dos primeiros tempos da descoberta de sua vocação nem o dogmatismo lhe servem de apoio. O que o sustém é somente sua capacidade de discernir. Essa etapa se caracteriza pela reflexão e pelo estudo que se faz de si mesmo. Sua vocação exige que ele revise todos e cada um de seus atos, sentimentos e pensamentos para ver se são adequados ou não ao cumprimento de seu ideal.

A alma se sacrifica por seu ideal; mas ainda não o ama acima de todas as coisas. Apesar das constantes tentativas de responder a sua vocação, ainda é presa fácil das reações negativas e do desalento.

A arte de viver, muitas vezes, leva o ser a contrariar desejos muitos arraigados. Por isso, se bem que a vocação espiritual não crie dificuldades, torna evidentes esses aspectos na medida em que ele trata de viver de acordo com sua vocação. Por exemplo, a contrariedade e as reações agressivas são pontos sobre os quais ele precisa trabalhar para continuar seu progresso.

Se em vez de desperdiçar sua energia descarregando-a com hostilidades, ficar atento ao processo que se desencadeia em seu interior, pode se conhecer melhor e trabalha mais a fundo na transmutação dessa energia. Se, pelo contrário, prefere fechar os olhos ao seu desenvolvimento, começa a pensar que sua vocação lhe cria problemas, que ela rouba seu tempo, que trava seus relacionamentos.

Outro aspecto que pesa sobre a alma é a tendência ao desalento que a aridez interior produz. O trabalho sobre si mesmo se torna rotineiro e o ser não encontra o consolo que antes o aliviava. Pelo contrário, descobre mais facilmente aspectos dolorosos da vida que não pode nem eliminar nem resolver como desejaria. Embora tenha conseguido discernir seu ideal, ainda não compreende a natureza do trabalho espiritual; isto o desanima e faz vacilar sua determinação.

Quando o ser humano compreende que a hesitação é regressão, que não pode ficar paralisado à espera de uma intervenção milagrosa que o torne livre; quando decide fazer-se totalmente responsável por seu desenvolvimento e ao mesmo tempo aceita os desígnios da Providência, entra na terceira etapa da realização de sua vocação.

Todos os aspectos de sua vida vão-se harmonizando através de sua intenção única e de sua vontade aplicada unicamente ao bem. As peças aparentemente desligadas da realidade vão-se ajustando umas às outras até revelar com simplicidade a perfeição da lei da vida. Sua vida espiritual e a tarefa de viver são uma e a mesma coisa. O amor à liberdade sustenta sua vontade, inspira sua inteligência e nutre seus sentimentos. A alma se faz resistente, ousada, valente, não por força de virtudes, mas por força desse amor.

A vocação não elimina a incerteza nem a dor da vida, mas ensina a viver com mais sabedoria e a enfrentar o sofrimento de maneira que, inclusive as circunstâncias que parecem mais desfavoráveis produzam o florescimento das melhores possibilidades humanas.

Nessa etapa a alma começa a compreender que viver a vocação não lhe rouba tempo. Pelo contrário, multiplica seu temo pela sabedoria com que escolhe suas prioridades, pela harmonia e bom-senso com que organiza seu dia, por sua capacidade de estar onde deve estar, de estar atento ao que faz, de gerar em cada momento os sentimentos que despertam as respostas mais nobres e benéficas para todos.

A realização da vocação não tem um ponto final no qual se possa dizer “cumpri”. A vocação implica uma forma de viver que desenvolve a capacidade de ser dono de si mesmo, de estar a serviço de todos os seres humanos e de expandir continuamente a consciência.

As almas que fazem de sua vocação sua arte de viver mostram-se simples e naturais, sem pretensões de realizações extraordinárias. Por isso podem manter espontaneamente uma relação amável e frutífera com todos os seres humanos, através da qual transmitem sua paz e sabedoria.

Fonte: “A Arte de Viver a Relação”
Jorge Waxemberg

Vídeo Motivacional, que demonstra a importância da Vocação.


“Trabalhar sobre as relações é a maneira de responder ao desafio que implica nossa ignorância sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Todo esforço para responder com palavras a essas perguntas choca-se violentamente com a limitação do cérebro humano.  As relações, ao contrário, nos conectam com todos os aspectos da realidade, inclusive com aqueles que não compreendemos, e marcam vias pelas quais é possível expandir a consciência. O trabalho sobre as relações requer que tenhamos a ousadia de renunciar às ideias formadas sobre o que somos, o que sabemos e o que queremos na vida, e que nos apoiemos, por um lado, sobre a tarefa de nos relacionarmos de forma harmônica e consciente com uma área cada vez maior da realidade, e, pelo outro, sobre a fé em que, já que participamos da totalidade da existência, as respostas finais estão em nós mesmos. A experiência daqueles que remontam ao curso deste maravilhoso caminho interior mostra que isso é possível.”


próximo –
15. A Relação com a Orientação Espiritual

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Sobre Alexandre de Castro

Ser Humano que busca obter êxito ao praticar o altruísmo, pois aprendi que, apenas mantenho o que Dele recebo, quando compartilho com o meu igual: Você.
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