15. A Relação com a Orientação Espiritual

Todos os seres humanos precisam de orientação: no lar, na escola, no trabalho. Tradicionalmente entende-se por Orientação Espiritual aquela que se dá a quem a solicita, para viver de acordo com seu credo.

Neste trabalho o conceito de Orientação Espiritual se amplia e abarca toda a orientação que o ser humano recebe para que se possa realizar seu potencial. O processo desta realização se denomina desenvolvimento espiritual.

O trabalho do desenvolvimento espiritual é uma tarefa que requer conhecimento específico e sabedoria. O ser recebe esta ajuda através de seu Orientador Espiritual. Este não se considera um Mestre que deva ser seguido, já que cada ser humano tem seu próprio caminho. Ele pode ajudar porque palmilhou o trecho que o outro anseia por percorrer. O Orientador doa a quem o procura, sua experiência, sua compreensão e o apoio que necessita em cada etapa de sua vida. Ele não exige dos demais que mudem suas crenças, apenas os ajuda a ampliar seus pontos de vista, a discernir sua vocação, a reconhecer seu caminho e a usar os meios que tem para percorrê-lo.

O próprio fato de ter escolhido uma Orientação Espiritual implica que o ser sabe o que procura e a maneira como quer alcançar seu objetivo. A Orientação Espiritual o ajuda a manter atualizada a escolha com a qual definiu sua vida. Na Orientação Espiritual, tanto o Orientador como a alma desempenham papéis ativos. Ambos são companheiros de caminho.

Na verdade, a Orientação Espiritual expressa a voz da alma no mais alto estado de consciência que pode alcançar num determinado momento; é o espelho no qual decide se observar para discernir suas possibilidades e escolher seu caminho na vida. Na prática, o ser humano encontra na Orientação Espiritual quem o escute sem julgá-los, que o aconselhe sem nada pretender dele e que o oriente de acordo com o que ele mesmo anseia.

O simples fato de se procurar direção espiritual implica nossa decisão de enfrentar a própria vida. Dizer o que se sente e o que se anseia é a maneira de esclarecer a nós mesmos nossa situação e objetivos. A Orientação Espiritual é o ponto de referência que se usa para avaliar nossos estados subjetivos, nosso progresso ou estagnação, nossas escolhas e nossas possibilidades. O Orientador Espiritual nos ajuda a objetivar os problemas, a descobrir as opções, a universalizar nossos pontos de vista e a distinguir nosso próprio caminho no emaranhado dos acontecimentos quotidianos.

Assim como o corpo físico depende não somente dos alimentos que ingere mas também de sua maneira de assimilá-los, também o desenvolvimento da alma depende tanto da Orientação Espiritual que recebe como de sua forma de vivê-la.

A maneira como nos relacionamos com nossa vocação determina o alcance da Orientação Espiritual. É preciso esclarecer a nós mesmos qual o lugar que a vocação ocupa em nossa própria vida, em que medida prevalece sobre outro objetivo, em que grau estamos dispostos a comprometer nossos esforços, nosso tempo, nossos recursos e possibilidades para realizá-la. Se nossa vocação desempenha um papel secundário em nossa vida, aplicaremos ou não a Orientação Espiritual que recebemos, de acordo com nossos interesses do momento. Se, pelo contrário, nós centramos nossa vida em nossa vocação, a Orientação Espiritual se converte na fonte de conselho necessária para nosso desenvolvimento.

O resultado da Orientação Espiritual depende, em grande medida, do discernimento de cada um para entendê-la, de nosso esforço para aplicá-la, de nossa confiança para aceitá-la e de nosso compromisso para recebê-la.

Cada um aproveita a Orientação Espiritual na medida em que a entende. A Orientação Espiritual é compreendida quando se discerne sua natureza.

A Orientação Espiritual tem sua voz no próprio ser, já que a tarefa do Orientador Espiritual é tornar explícito e claro o que se anseia realmente. Ao seguir a Orientação Espiritual responde-se à própria voz interior e se adquire a força necessária para perseverar na realização do ideal.

A Orientação Espiritual é como um espelho em que podemos nos ver a nós mesmos em relação ao nosso ideal. A intenção do Orientador Espiritual é estimular-nos para que realizemos o que queremos realizar; sua orientação se baseia na determinação que temos de trabalhar em nosso próprio desenvolvimento. O Orientador Espiritual nos assiste na elucidação de nossas opções e nos estimula para que sigamos nossa vocação. Por isso a Orientação Espiritual perderia seu sentido se relegássemos nossa vocação ou a subordinássemos a outros objetivos.

A Orientação Espiritual responde às necessidades e possibilidades de cada ser humano em particular; cada qual recebe a ensinança que requer num determinado momento; por isso procura não generalizar a orientação que recebe. Distingue entre o que se aplica apenas a uma etapa de sua vida e o que é válido sempre; sabe que a orientação que recebe responde a suas próprias características e que apesar de ser apropriada para si, não é necessariamente a mesma que outros necessitam.

O grau em que alguém compreende a Orientação Espiritual que recebe reflete-se na reação que sua conduta produz nos demais. Quando o ser vive a Orientação Espiritual com amor e bom senso, sua conduta eleva o nível da relação com seus familiares, amigos e companheiros, melhora os ambientes de que participa e repercute positivamente sobre toda a sociedade.

Pode acontecer que alguém aplique a orientação que recebe de tal maneira que, em vez de produzir um benefício, gere reação e ressentimento nos demais. Por exemplo, que discipline sua vida com grande vontade e exija a mesma ascética dos que o rodeiam; que seu zelo o leve a tratar com dureza os que o estimam mas não pensam do mesmo modo que ele.

Não é essa a forma de ajudar. A boa influência sobre o meio é sentida positivamente não quando alguém tenta se impor sobre outros, mas quando purifica seus sentimentos, seus pensamentos e, especialmente, quando mantém uma atitude tolerante e compassiva.

Para realizar a própria vocação, além de entender a Orientação Espiritual é necessário um esforço permanentemente para pôr em prática o que se entende.

É necessário dominar os impulsos e desejos parar podermos orientar nossa energia em direção ao ideal eleito. Isso implica manter-se atento a todos os aspectos de nossa conduta e ir aperfeiçoando paulatinamente nossa maneira de responder aos estímulos.

Pode acontecer que alguém reaja negativamente à orientação que recebe com a desculpa de que não está de acordo com ela, quando na realidade o problema consiste em não ter suficiente vontade para aplicá-la.

A vontade se desenvolve de forma notável com a persistência no esforço e dá uma grande segurança interior para que nos conduzamos na vida. Nós nos sentimos fortes e livres porque podemos escolher como reagir ante as circunstâncias e sabemos que vamos atuar como nos foi proposto.

A Orientação Espiritual se baseia na confiança no Orientador que se escolheu. Este confia em nossa atitude de procurar sempre o bem mais elevado, e nós descansamos na fé de que o Orientador Espiritual nos orienta com segurança em direção à realização de nosso ideal. A confiança recíproca entre nós e nosso Orientador Espiritual enriquece a ambos e transforma uma relação de aparente dependência num caminho compartilhado.

Cada um de nós assume em todo momento a responsabilidade de nosso desenvolvimento, porque somos nós mesmos que decidimos nossa vida e enfrentamos as consequências de nossas atitudes e escolhas. Embora o Orientador Espiritual nos aconselhe, somos responsáveis por nossas decisões. Não fazemos algo porque alguém nos sugeriu mas porque decidimos fazê-lo.

A Orientação Espiritual não é uma panaceia nem elimina as dificuldades próprias da vida; porém ajuda o ser humano a resolver seus conflitos, evitar males, realizar suas melhores possibilidades e viver suas experiências para que redundem em seu próprio bem e no bem de todos.

Com seu pedido de orientação, o ser expressa sua decisão de enfrentar sua vida na realização de sua vocação. Quando aceita orientar uma alma o Orientador Espiritual enlaça sua vida com a dessa alma até que esta realize seu ideal. Ele não é livre, já que sua vida está determinada pelas necessidades daqueles que confiam nele.

A entrega da alma à Orientação Espiritual impõe ao Orientador Espiritual uma enorme responsabilidade. Ao pedir Orientação Espiritual e assumir a responsabilidade por seu próprio desenvolvimento o ser compromete o Orientador Espiritual a manter uma conduta impecável. A preparação anímica e a permanente atualização intelectual não são suficientes para o Orientador, ele também deve pôr de lado sua personalidade corrente, com suas preferências e opiniões particulares. Só a renúncia a si mesmo permite ao Orientador dar às almas uma ensinança transcendente e os meios de que necessitam para realizar suas possibilidades espirituais.

Quando o Orientador Espiritual está diante de uma alma, nunca esquece que sua voz deve expressar o que essa alma precisa escutar. Quando se está frente ao Orientador Espiritual não se deve esquecer que a única coisa que se pode esperar dele é a mensagem de sua própria vocação.

Fonte: “A Arte de Viver a Relação”
Jorge Waxemberg

Orientação espiritual e humanização no Into


“Trabalhar sobre as relações é a maneira de responder ao desafio que implica nossa ignorância sobre o que somos, de onde viemos, para onde vamos. Todo esforço para responder com palavras a essas perguntas choca-se violentamente com a limitação do cérebro humano.  As relações, ao contrário, nos conectam com todos os aspectos da realidade, inclusive com aqueles que não compreendemos, e marcam vias pelas quais é possível expandir a consciência. O trabalho sobre as relações requer que tenhamos a ousadia de renunciar às ideias formadas sobre o que somos, o que sabemos e o que queremos na vida, e que nos apoiemos, por um lado, sobre a tarefa de nos relacionarmos de forma harmônica e consciente com uma área cada vez maior da realidade, e, pelo outro, sobre a fé em que, já que participamos da totalidade da existência, as respostas finais estão em nós mesmos. A experiência daqueles que remontam ao curso deste maravilhoso caminho interior mostra que isso é possível.”


próximo –
16. A Relação com Deus

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Sobre Alexandre de Castro

Ser Humano que busca obter êxito ao praticar o altruísmo, pois aprendi que, apenas mantenho o que Dele recebo, quando compartilho com o meu igual: Você.
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