depois de Cristo

20 a.C. – 50 d.C.

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Fílon de Alexandria (grego: Φίλων ο Αλεξανδρινός Fílon o Alexandrinós, hebraico פילון האלכסנדרוני, Pilon ha-Alexandroni) foi um filósofo judeo-helenista (20 a.C. — 50 d.C.) que viveu durante o período do helenismo.

Tentou uma interpretação do Antigo Testamento à luz das categorias elaboradas pela filosofia grega e da alegoria. Foi autor de numerosas obras filosóficas e históricas, onde expôs a sua visão platónica do judaísmo. Surge como o primeiro pensador a tentar conciliar o conteúdo bíblico à tradição filosófica ocidental. Neste sentido, é mais conhecido por sua doutrina do logos, sobre a qual ainda se encontram à espera de solução inúmeras controvérsias.

O pensamento filoniano mostra-se original e marcado por contribuições alheias à cultura helênica, a saber, judaicas. No que diz respeito especificamente ao logos filoniano, ele é a Lei (Torah) ela mesma, a ação de Deus no mundo, o instrumento da Criação, modelo do mundo e imagem de Deus, a Palavra reveladora e o único meio a partir do qual a alma humana adquire o conhecimento verdadeiro, que vem do conhecimento de Deus. Esta faculdade, porém, não pertence ao homem senão como dom divino, como graça.

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4 d.C. – 65 d.C

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Lúcio Aneu Séneca (português europeu) ou Sêneca (português brasileiro) (em latim: Lucius Annaeus Seneca; Corduba, 4 a.C. —Roma, 65 d.C.) foi um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano. Conhecido também como Séneca(ou Sêneca), o Moçoo Filósofo, ou ainda, o Jovem, sua obra literária e filosófica, tida como modelo do pensador estoico durante o Renascimento, inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista.

1 Vida

Oriundo de família ilustre, era o segundo filho de Hélvia e de Marco Aneu Sêneca (Séneca, o Velho). O pai era um orador eloquente e muito abastado. O irmão mais velho de Lúcio chamava-se Lúcio Júnio Gálio e era procônsul (administrador público) na Acaia, onde, em 53, se encontrou com o apóstolo cristão Paulo. Séneca, o Jovem, foi tio do poeta Lucano.

Ainda criança (três anos), foi enviado a Roma para estudar oratória e filosofia. Com a saúde abalada pelo rigor dos estudos, passou uma temporada no Egito para se recuperar e regressou a Roma por volta do ano 31. Nessa ocasião, iniciou carreira como orador e advogado e logo chegou ao senado.

Em 41, foi acusado por Messalina, esposa do imperador Cláudio, de ter cometido adultério com Júlia Livila, sobrinha do imperador. Como consequência, foi exilado para a Córsega. No exílio, em meio a grandes privações materiais, Séneca dedicou-se aos estudos e redigiu vários de seus principais tratados filosóficos. Entre eles, os três intitulados Consolationes (“Consolos”), em que expõe os ideais estoicos clássicos de renúncia aos bens materiais e busca da tranquilidade da alma mediante o conhecimento e a contemplação.

Por influência de Agripina, a Jovem, sobrinha do imperador e uma das mulheres com quem este se casou, Séneca retornou a Roma em 49. Agripina tornou-o preceptor de seu filho, o jovem Nero, e elevou-o a pretor em 50. Séneca contraiu matrimônio com Pompeia Paulina e organizou um poderoso grupo de amigos.

Logo após a morte de Cláudio, ocorrida em 54, o escritor vingou-se com um escrito que foi considerado obra-prima das sátiras romanas, Apocolocyntosis divi Claudii (“Transformação em abóbora do divino Cláudio”). Nessa obra, Séneca critica o autoritarismo do imperador e narra como ele é recusado pelos deuses. Seu irmão, Lúcio Júnio Gálio, também ridicularizou Cláudio, fazendo uma analogia com as pessoas executadas, que eram levadas ao Fórum Romano puxadas por ganchos: ele disse que Cláudio havia sido elevado aos céus puxado por um gancho.

Quando Nero, aos dezessete anos, tornou-se imperador, Séneca continuou a seu lado, porém não mais como pedagogo e sim como seu principal conselheiro (ajudado por Afrânio Burro, prefeito do Pretório). Sêneca procurou orientar para uma política justa e humanitária. Se, durante os primeiros sete anos, o governo de Nero lembra o de Augusto, o mérito exclusivo é desses dois homens que, na realidade, governaram ao lado do jovem príncipe. A índole de Nero foi mitigada, corrigida, freada. Mais tarde, porém, a malvadez de Nero teve o predomínio. Séneca, durante algum tempo, exerceu influência benéfica sobre o jovem, mas, aos poucos, foi forçado a adotar atitudes de complacência. Chegou mesmo a redigir uma carta ao Senado na qual se alega que tentou justificar a execução de Agripina em 59. Séneca sabia que a maior culpa por sua morte havia sido da própria Agripina, que pretendia imperar e que se tornara hostil por ambição, capricho e corrupção; sua raiva crescente só fez aumentar a vingança matricida de Nero, que não deu mais ouvidos às palavras severas de seus dois conselheiros. Séneca foi, então, muito criticado pela fraca oposição à tirania e à acumulação de riquezas de Nero, incompatíveis com as concepções estoicas. Conforme concluiu o emérito professor Giulio Davide Leoni, o destino foi, em parte, malvado para com Séneca, fazendo chegar até nós as acusações e perdendo as defesas. Da leitura atenta de suas páginas, do modo como aceitou e caminhou para a morte, como Sócrates, surge um juízo sincero que as reticências dos historiadores e estudiosos, muitas vezes, acabam por ofuscar.

Em De Beneficiis (II,18), Séneca lembra que “às vezes, mesmo contra a nossa vontade, devemos aceitar um benefício, quando é dado por um tirano cruel e iracundo, que reputaria injúria que tu desdenhasses seu presente. Não deverei aceitar?” Assim, mais importante do que saber que Séneca era rico, é saber se ele era ávido de riquezas, se viveu no fausto e na opulência.

Conforme suas Epistulae Morales ad Lucilium, seu pensamento era este: é lícito ser rico, contudo é preciso viver de tal modo que se possa, em cada contingência, bastar a si próprio e renunciar a qualquer bem que a sorte pode dar, mas também tirar. Rico, Séneca viveu com um certo conforto, mas, conforme acreditava e pregava, sempre de maneira modesta.

“Séneca”, no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles

Tem razão o professor G.D. Leoni, da Sedes Sapientiae, quando afirma, no seu estudo introdutivo ao volume XLIV da Biblioteca Clássica da Atena Editora, São Paulo, 1957, que, sem dúvida, a posteridade foi injusta, recolhendo, contra esse homem, somente as invejosas acusações dos seus inimigos. Mas a perfeita intuição dos poetas define aquilo que os críticos se esforçam por esclarecer mas amiúde ofuscam. Dante, no limbo, vê, entre os sumos escritores e heróis antigos – Sócrates,Platão, Demócrito, Diógenes, Anaxágora, Tales de Mileto, Empédocles, Heráclito, Zenão, Dioscórides, Orfeu, Cícero, Lino e “Séneca morale”. Séneca, diferente de um filósofo, é um entusiasta da filosofia, estudioso apaixonado, informado de todas as correntes filosóficas do seu tempo, mas contrário a encerrar-se em qualquer sistema ou fórmula. Nele, a filosofia era viva, era a própria vida. “A prosa adere ao pensamento, uniformiza-se adapta-se a ele; e muitas vezes um subentendido produz um jogo de luzes e sombras cheios de profunda beleza, amiúde a frase breve produz inesperadas imagens pictóricas, outras vezes antíteses, ou as anedotas enriquecem as sentenças austeras, a argúcia atenua a trágica solenidade do assunto”. Poeta, humanista, mais que filósofo, o elemento preponderante em suas obras são os sentimentos, mais do que as idéias, com as quais, na origem, pouco contribuiu. Entretanto, na história do pensamento, nunca ninguém foi tão compenetrado do sentimento da nobreza do espírito humano, e soube tão bem e poderosamente transmitir esse sentimento em palavras.” Sua prosa é vivaz, variada, alegre, moderna, eterna; como quando procura mostrar como as desventuras pelas quais passam os bons, devem ser encaradas como provas para melhor evidenciar suas virtudes, ajudar o próximo: “Os deuses põem à prova a virtude e exercitam a força de espírito dos bons, que devem seguir seu destino preestabelecido: o sábio, por isso, nunca será infeliz.”

Mármore Busto de Séneca, por um autor anônimo do século XVII, Museu do Prado.

Séneca retirou-se da vida pública em 62. Entre seus últimos textos, estão a compilação científica Naturales quaestiones (“Problemas naturais”); os tratados De tranquillitate animi (Sobre a tranquilidade da alma), De vita beata (Sobre a vida beata) e, talvez sua obra mais profunda, as Epistolae morales, dirigidas a Lucílio, em que reúne conselhos estoicos e elementos epicuristas na pregação de uma fraternidade universal mais tarde considerada próxima ao cristianismo.

No ano 65, Séneca foi acusado de ter participado da conspiração de Pisão, na qual o assassínio de Nero teria sido planejado. Sem qualquer julgamento, foi obrigado a cometer o suicídio. Na presença dos seus amigos, cortou os pulsos com o ânimo sereno que defendia em sua filosofia. Tácito relatou a morte de Séneca e da mulher, que também cortou os pulsos. Nero, com medo da repercussão negativa dessa dupla morte, mandou que médicos a tratassem, e ela sobreviveu ao marido alguns anos.

2 Contemporâneo de Cristo

Apesar de ter sido contemporâneo de Cristo, Séneca não fez quaisquer relatos significativos de fenômenos milagrosos que aparentemente anunciavam o despoletar de uma poderosa nova religião; entretanto, segundo Jerónimo (“De Viris Illustribus”, XII), Séneca teria trocado correspondências com Paulo (apóstolo com cidadania romana, também conhecido por Saulo) . Constata-se que os cristãos, por intermédio de Lúcio Aneu Séneca, assimilaram os princípios estoicos, utilizando, inclusive, as mesmas metáforas estoicas na Bíblia. Um facto tanto mais curioso é que Séneca, como filósofo, interessou-se por todos os fenômenos da natureza, resultando nas cartas intituladas posteriormente “Questões da natureza”, como observou Edward Gibbon, historiador do iluminismo do século XVIII, perito na história do Império Romano e autor do livro História do Declínio e Queda do Império Romano.

3 A filosofia de Séneca

Séneca desenhado por Peter Paul Rubens

Séneca ocupava-se da forma correta de viver a vida (ou seja, da ética), da física e da lógica. Via o sereno estoicismo como a maior virtude, o que lhe permitiu praticar a imperturbabilidade da alma, denominada ataraxia (termo utilizado a primeira vez por Demócrito em 400 a.C.). Juntamente com Marco Aurélio e Cícero, conta-se entre os mais importantes representantes da intelectualidade romana.

Séneca via, no cumprimento do dever, um serviço à humanidade. Procurava aplicar a sua filosofia à prática. Deste modo, apesar de ser rico, vivia modestamente: bebia apenas água, comia pouco, dormia sobre um colchão duro. Séneca não viu nenhuma contradição entre a sua filosofia estoica e a sua riqueza material: dizia que o sábio não estava obrigado à pobreza, desde que o seu dinheiro tivesse sido ganho de forma honesta. No entanto, devia ser capaz de abdicar da riqueza.

Séneca via-se como um sábio imperfeito: “Eu elogio a vida, não a que levo, mas aquela que sei dever ser vivida.” Os afetos (como relutância, vontade, cobiça, receio) devem ser ultrapassados. O objetivo não é a perda de sentimentos, mas a superação dos afetos. Os bens podem ser adquiridos, à condição de não deixarmos que se estabeleça uma dependência deles.

Para Séneca, o destino é uma realidade. O homem pode apenas aceitá-lo ou rejeitá-lo. Se o aceitar de livre vontade, goza de liberdade. A morte é um dado natural. O suicídio não é categoricamente excluído por Séneca.

Séneca influenciaria profundamente o pensamento de João Calvino. O primeiro livro de Calvino foi um comentário ao De Clementia, de Séneca.

4 A obra literária de Séneca

Ao se analisarem os escritos de Séneca, é possível perceber a forma pela qual alcançou o conhecimento e desenvolvimento da ideia de fluxo de energia, que advém, segundo ele, de algum “princípio ativo” (termo utilizado em seu livro “Questões Naturais”), o qual sujeita à regra geral: “causa e efeito”, ou “ação e reação”, de tal forma que sugeria, em uma de suas ”Cartas a Lucílio”, que só tem domínio de si aquele que não faz de seu corpo um peregrinador por outros corpos.

Séneca destacou-se como estilista literário. Numa prosa coloquial, seus trabalhos exemplificam a maneira de escrever retórica, declamatória, com frases curtas, conclusões epigramáticas e emprego de metáforas. A ironia é a arma que emprega com maestria, principalmente nas tragédias que escreveu, as únicas do gênero na literatura da antiga Roma. Versões retóricas de peças gregas, elas substituem o elemento dramático por efeitos brutais, como assassinatos em cena, espectros vingativos e discursos violentos, numa visão trágica e mais individualista da existência.

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fim do século 2 d.C.

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Cardo máximo, a rua principal de norte a sul da cidade de Apameia (Síria)

Numênio de Apameia ou Numénio de Apameia foi um filósofo platônico do século II que teve um impacto considerável sobre o platonismo posterior, mais notavelmente em Plotino. A sua obra sobrevive apenas em fragmentos, seja como trechos ou relatórios de fontes posteriores, em sua maioria platônicos, cristãos e pagãos (por exemplo, de Orígenes, Eusébio de Cesareia, Porfírio, ou Proclo). O último filósofo neopitagórico importante, talvez o pensador mais original e criativo da tradição pitagórica.

Pouco se sabe sobre a vida de Numênio. As referências existentes associam Numênio a duas cidades, Apameia (na Síria) e Roma. Amélio, estudante de Plotino, era um admirador entusiasmado de Numênio e o chama de “Apameu, que se mudou de Roma para Apameia. João, o Lídio (séc. VI), no entanto, refere-se a Numênio como “o romano”. O forte interesse de ambos Amélio e Porfírio em considerar Numênio faz disso a prova em a Vida de Plotino de Porfírio bastante significativa, mas o testemunho de João, o Lídio também pode conter alguma verdade. Uma possível forma de conciliar os dois é que Numênio nasceu em Apameia mas ensinou tanto lá quanto em Roma.

1 Filosofia

Numênio era um neopitagórico, mas seu objetivo foi traçar as doutrinas de Platão até Pitágoras e ao mesmo tempo mostrar que ambas não estavam em desacordo com os dogmas e mistérios brâmanes, judaicos, magos e egípcios. Sua intenção era restaurar a filosofia de Platão, o genuíno pitagórico e mediador entre Sócrates e Pitágoras em sua pureza original, eliminado doutrinas aristotélicas e estóicas, e purificado-as de explicações insatisfatórias e perversas que, segundo ele, foram encontrados até mesmo em Espeusipo e Xenócrates, e que, através da influência de Arcesilau e Carneades levou a um fundo ceticismo.

Seus livros Sobre o Bem (do gergo Περὶ Τἀγαθοῦ, Peri Tagathou) continham explicações minuciosas, principalmente, em oposição ao estóicos, de que a existência não podia ser encontrada sequer nos Elementos, porque eles estavam em um estado perpétuo de mudança e transição e tampouco na matéria, porque é vaga, inconstante, sem vida e não um objeto de nosso conhecimento em si, contrária a existência, que tem por fim resistir à destruição e decomposição da matéria , esta deve ser incorpórea e removida de toda mutabilidade, na presença eterna, sem estar sujeita à variação do tempo, simples e imperturbável na sua natureza por sua própria vontade, bem como pela influência externa. A verdadeira existência é idênticas ao primeiro deus existente em si mesmo, isto é, assim como o Bem é definido como o espírito (nous). Mas, como o primeiro deus (absoluto) existente em si mesmo e imperturbável em seu movimento, não poderia ser criador (δημιουργικός, o Demiurgo ), ele pensou que nós devemos considera um segundo deus que mantém a matéria em conjunto, direciona sua energia para ela e para as essências inteligíveis e dá o seu espírito a todas as criaturas, a sua mente está direcionada para o primeiro deus, em quem contempla as ideias de acordo com o que ele organiza no mundo harmoniosamente, sendo apreendido com o desejo de criar o mundo. O primeiro deus comunica suas ideias para o segundo, sem perdê-las de si, assim como transmitimos conhecimento ao outro, sem privar-se dele por isso.

2 Judaismo e Cristianismo

Numenius considerou que havia uma espécie de trindade dos deuses, os membros que ele designou como “pai”, “criador” e “o que é feito”, ou seja, o mundo.
Xilogravura de “Die Bibel in Bildern“,1860.

Numênio é famoso ao afirmar que Platão é um Moisés falando grego ático, ou seja, que Platão era o Moisés helenistico. No entanto, a veracidade desta afirmação é contestada desde que a citação vem dos Padres da Igreja que tinham interesse em ligar a sabedoria grega à bíblica, o que justificaria a superioridade do cristianismo sobre o helenismo, porque Moisés antecede Platão – assim, a fonte original dessa sabedoria é a raiz do cristianismo e não a cultura helenística.

A divergência principal com Platão é a distinção entre um “primeiro Deus” e o “demiurgo”. Isto provavelmente é devido à influência dos filósofos judeus e alexandrinos (especialmente Fílon de Alexandria e sua teoria do logos). De acordo com Proclo, Numenius considerou que havia uma espécie de trindade dos deuses, os membros que ele designou como “pai”, “criador” e “o que é feito”, ou seja, o mundo. A primeira é a divindade suprema ou a inteligência pura, o segundo o criador do mundo, a terceira o mundo em si. Numênio também alegou que os três deuses, o “pai”, o “Criador” e a “Criação” eram na verdade um só. Seus trabalhos eram altamente estimados pelos neoplatônicos, e Amélio, estudante de Plotino (que era crítico do gnosticismo) disse ter composto quase dois livros de comentários sobre ele. Ao contrário do ensino ortodoxo judaico-cristã (mais de acordo com os ensinamentos do gnosticismo), como Orfeu e Platão. Numenius escreveu sobre o corpo humano como uma prisão da alma.

2.1 Interpretação do Génesis

Grande parte da interpretação do Gênesis I de Numênio é elaborado a partir da filosofia de Platão formas. Numênio também chama muito a partir de Timeu de Platão, que apresenta a história de um grande criador chamado o Demiurgo que criou tudo à semelhança de formas platônicas.

No entanto, a interpretação de Numênio pode causar alguma confusão, porque de acordo com a interpretação clássica do Gênesis, Deus cria tudo e antes daquele momento ela não existia (criação ex nihilo). Não está claro onde exatamente Numênio está essa parte no Gênesis. No Timeu, Platão inclui na história que a criação teve um começo no tempo. Numênio pode ter tentado responder isto propondo que o cosmos tem um ciclo de destruição e criação. Embora seja difícil determinar como Numênio considerou essas discrepâncias, é possível que ele tenha considerado a criação original do cosmos o início de tais ciclos.

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185 d.C. – 255 d.C.

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Orígenes (em grego Ὠριγένης), cognominado Orígenes de Alexandria ou Orígenes de Cesareia ou ainda Orígenes o Cristão(Alexandria, Egipto, 185 d.C. — Cesareia, ou, mais provavelmente, Tiro, 253 ), foi um teólogo, filósofo neoplatônico patrístico e é um dos Padres gregos.

Um dos mais distintos pupilos de Amônio de Alexandria, Orígenes foi um prolífico escritor cristão, de grande erudição, ligado àEscola Catequética de Alexandria, no período pré-niceno.

Inspirados em Orígenes e na Escola de Alexandria, muitos escritores cristãos desenvolveram suas obras: Sexto Júlio Africano,Dionísio de Alexandria, o Grande, Gregório Taumaturgo, Firmiliano, bispo de Cesareia (Capadócia), Teognosto, Pedro de Alexandria, Pânfilo e Hesíquio.

Orígenes de Alexandria não deve ser confundido com o filósofo Orígenes, o Pagão (210-280), mais jovem e também integrante da Escola de Alexandria, porém discípulo de Plotino.

Biografia

O maior erudito da Igreja antiga – segundo J. Quasten – nasceu de uma família cristã egípcia e teve como mestre Clemente de Alexandria.

Assumiu, em 203, a direção da escola catequética de Alexandria – fundada por um estóico chamado Panteno, que se havia convertido à mensagem de Jesus – atraindo muitos jovens estudantes pelo seu carisma, conhecimento e virtudes pessoais.

Depois de ter também frequentado, desde 205, a escola de Amônio Sacas, fundador do neo-platonismo e mestre de Plotino, apercebeu-se da necessidade do conhecimento apurado dos grandes filósofos.

No decurso de uma viagem à Grécia, no ano de 230, foi ordenado sacerdote na Palestina pelos bispos Alexandre de Jerusalém e Teoctisto de Cesareia.

Em 231, Orígenes foi forçado a abandonar Alexandria devido à animosidade que o bispo Demétrio lhe devotava pelo facto de se ter castrado e convocou o Concílio de Alexandria(231) com esta finalidade. Também, contribui para esse facto o de Orígenes ter levado ao extremo a apropriação da filosofia platónica, tendo sido considerado herético.

Orígenes, então, passou a morar num lugar onde Jesus havia muitas vezes estado: Cesareia, na Palestina, onde prosseguiu suas atividades com grande sucesso, abrindo a chamada Escola de Cesareia. Na sequência da onda de perseguição aos cristãos, ordenada por Décio, Orígenes foi preso e torturado, o que lhe causou a morte, por volta de 253.

Os seus ensinos foram condenados ainda pelo Concílio de Alexandria de 400 e pelo Segundo Concílio de Constantinopla, em 533, o que demonstra terem perdurado até ao século VI.

A produção teológica

Orígenes escreveu – diz-nos São Jerónimo em De Viris Illustribus1 – nada menos que 600 obras, entre as quais as mais conhecidas são: De PrincippisContra Celso e a Héxapla. Entre os seus numerosos comentários bíblicos devem ser realçados: Comentário ao Evangelho de Mateus e Comentário ao Evangelho de João. O número das suas homílias que chegaram até aos dias de hoje ultrapassam largamente a centena.

Traços de um pensamento

A importância do Espírito Santo: 
«O Espírito sopra onde quer
 (Jo 3, 8). Isto significa que o Espírito é um ser substancial e não, como alguns afirmam, uma simples força ou atividade de Deus sem existência individual. O Apóstolo (São Paulo), depois de enumerar os dons do Espírito, prossegue: “um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um de acordo com a sua vontade” (1 Cor 12, 11). Portanto, se atua e distribui de acordo com a sua vontade, é um ser substancial ativo, e não uma mera atividade ou manifestação.»
— Fragm. in Jo. 37.,

Orígenes, além dos seus trabalhos teológicos, dedicou-se ao estudo e à discussão da filosofia, em especial Platão e os filósofos estóicos.
No seu pensamento, podemos referir a tese da pré-existência da alma e a doutrina da “apocatastase”, ou seja, da restauração universal (palingenesia), ambas posteriormente condenadas no Segundo Concílio de Constantinopla, realizado em 553, por serem formalmente contrárias ao núcleo irredutível do ensinamento bíblico -, embora estudiosos modernos e contemporâneos reconheçam inequivocamente que a primeira era mais «atribuída a Orígenes (por outros) do que propriamente defendida por ele».
Segundo o renomado livro sobre a História da Filosofia, de Reale e Antiseri, a condenação de algumas doutrinas de Orígenes se deu muito pelos exageros cometidos pelos seus discípulos, os origenistas.

Ao contrário do que afirmam certos teosofistas – como, por exemplo Geddes MacGregor no seu livro de 1978 “Reincarnation in Christianity: A New Vision of the Role of Rebirth in Christian Thought” -, Orígenes era totalmente contrário à doutrina da metempsicose (renascimento do ser humano em animais). Profundo conhecedor deste conceito a partir da filosofia grega, afirma que a metempsicose (transmigracão) “é totalmente alheia à Igreja de Deus, não ensinada pelos Apóstolos e não sustentada pela Escritura” (“Comentário ao Evangelho de Mateus” XIII, 1, 46–53).

Orígines, embora não duvidando de que o texto sagrado seja invariavelmente verdadeiro, insiste na necessidade da sua correta interpretação. Assim, teve a suficiente percepção para distinguir três níveis de leitura das escrituras: 1- o Literal 2- o Moral; 3- o Espiritual, que é o mais importante e também o mais difícil. Segundo Orígenes, cada um destes níveis indica um estado de consciência e amadurecimento espiritual e psicológico.

Santíssima Trindade

Orígenes como é comum nos escritores cristãos influenciados pelas doutrinas derivadas de Platão coloca as Idéias platônicas na Mente Divina, na Sabedoria de Deus. O Filho de Deus, Segunda pessoa da Trindade, é a Sabedoria bíblica: Mente de Deus, substancialmente subsistente:

[…] Deus sempre foi Pai, e sempre teve o Filho unigênito, que, conforme tudo o que expusemos acima, é chamado também de sabedoria (…) nesta sabedoria que sempre estava com o Pai, estava sempre contida, preordenada sob a forma de idéias, a criação, de modo que não houve momento em que a idéia daquilo que teria sido criado não estivesse na sabedoria…(Orígenes. Os princípios, livro I, 4, 4-5.)

Influenciado pelo Medioplatonismo e pelo inicio do Neoplatonismo Orígenes admite certa subordinação do Filho ao Pai, é importante ressaltar que tal subordinação foi exagerada por seus adversários. E que apesar de discordar da perfeita paridade entre o Pai e o Filho, na História da Filosofia de Giovanni Reale afirma que Orígenes defende que o Pai e o Filho possuem a mesma essência.

Ao contrário dos homens que tornaram-se filhos de Deus pela adoção do Espírito: “Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba! Pai!” (Romanos 8,15). Orígenes afirma que Cristo é Filho por natureza, “o Filho unigênito do Pai”. (Orígenes. Os princípios, livro I, 4, 4-5).

O que vai configurar o pensamento do Primeiro Concílio de Niceia, com a ressalva que Cristo Se fez menor do que o Pai quando Se encarnou até a morte na cruz, quando ressuscita ao terceiro dia e Se senta segundo Suas palavras à direita do Poder (Mt 26, 64).

Maria no Cristianismo

O pensamento de Orígenes chama bastante atenção no que diz respeito a esse tema, pois alem de afirmar a virgindade de Maria, realça os olhos com que naturalidade afirma também a imaculada conceição de Maria: “Desposada com José, mas não carnalmente unida. A Mãe deste foi Mãe imaculada, Mãe incorrupta, Mãe intacta. A Mãe deste, de qual este? A Mãe do Senhor, Unigênito de Deus, do Rei universal, do Salvador e Redentor de todos.” (Orígenes – homilia inter collectas ex variis locis).

Primado de Pedro

Conforme fragmento conservado na “História Eclesiástica” de Eusébio, III, 1 Orígenes conta como foi o martírio do apóstolo Pedro em Roma: “Pedro, finalmente tendo ido para Roma, lá foi crucificado de cabeça para baixo”.

E professa também o Primado de Pedro: “E Pedro, sobre quem a Igreja de Cristo foi edificada, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão. (…)” (In Joan. T.5 n.3).

Batismo

Orígenes também atesta que a Igreja, como sempre fez, deve batizar as crianças: “A Igreja recebeu dos Apóstolos a tradição de dar batismo também aos recém nascidos”. (Epist. ad Rom. Livro 5,9).

A Contra Celso e a exegese alegórica

Orígenes dedicou uma de suas obras contra Celso, considerado um dos primeiros críticos da doutrina do cristianismo. Do que sabemos de Celso foi o próprio Orígenes quem nos deu a conhecer, inclusive a sua obra a Alêthês Lógos (O logos verdadeiro) e o livro “Discurso contra os Cristãos”, obra em que Celso coloca claramente a forma como o judaismo e Cristianismo se tornaram cópias de outras religiões, tanto na questão dos mitos da arca de Noé como a circuncisão onde Celso firma que os Judeus receberam essa tradição dos egípcios.

A partir de Orígenes, sabemos ainda apenas que ele é do século II, e que escreveu a sua obra por volta de 178, e, portanto, sob o reinado do imperador Marco Aurélio (que se deu de 161 d.C. a 180 d.C.).

A Alêthês Lógos, de Celso, coloca em questão vários assuntos da crença relacionados à criação e à unidade de Deus, à encarnação e ressurreição de Jesus, aos profetas, aos milagres, etc. Ela questiona também assuntos da vida religiosa, não só sobre a moral, mas também sobre a participação da Igreja e dos cristãos na vida política e social.

Na seqüência, Spinelli analisa esses vários pontos que a Contra Celso de Orígenes se propõe a combater. A obra exegética de Orígenes se concentra sobretudo no tratado que ele desenvolveu Sobre os princípios (Perì archôn). A exegese difundida e aplicada por ele está apoiada no que o judeu Fílon de Alexandria (20 a.C a 42 d.C.) concebeu como interpretação alegórica dos textos sagrados do judaísmo.

Filon era de opinião de que o texto bíblico, de um modo geral, carecia de ser interpretado historicamente (no sentido da crítica das fontes, da origem do texto e de seu contexto). Dado que as palavras tinham um sentido escondido, mas admirável e profundo, era necessário adentrar-se nessa profundeza, a fim de trazer à tona, além do sentido magnífico, todo o seu valor… É nessa mesma perspectiva de Filon (representante da Escola Bíblica Judaica), e no ambiente das escolas exegéticas de Alexandria… que se desenvolveu a exegese de Orígenes.

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272 d.C. – 337 d.C.

Ficheiro:0 Constantinus I - Palazzo dei Conservatori (2).JPG

Constantino I, também conhecido como Constantino Magno ou Constantino, o Grande (em latim Flavius Valerius Constantinus; Naisso, 272 — 22 de maio de 337), foi um imperador romano, proclamado Augusto pelas suas tropas em 25 de julho de 306, que governou uma porção crescente do Império Romano até a sua morte.

Constantino derrotou os imperadores Magêncio e Licínio durante as guerras civis. Ele também lutou com sucesso contra os francos e alamanos, os visigodos e os sármatas durante boa parte de seu reinado, mesmo depois do reassentamento de Dácia, que havia sido abandonada durante o século anterior. Constantino construiu uma nova residência imperial em lugar de Bizâncio, chamando-o de Nova Roma. No entanto, em honra de Constantino, as pessoas chamavam-na de Constantinopla, que viria a ser a capital do Império Romano do Oriente por mais de mil anos. Devido a isso, ele é considerado como um dos fundadores do Império Romano do Oriente.

Fontes

Constantino era um governante de grande importância histórica e sempre foi uma figura controversa. As flutuações na reputação de Constantino refletem a natureza das fontes antigas de seu reinado. Estes são abundantes e detalhadas, mas foram fortemente influenciadas pela propaganda oficial do período, e são muitas vezes unilaterais. Não há histórias de sobreviventes ou biografias que lidam com a vida de Constantino e do Estado. As mais próximas substituições são Constantini Vita de Eusébio de Cesareia, uma obra que é uma mistura de elogio e hagiografia. Escrito entre 335 e cerca de 339, a Vita exalta virtudes morais e religiosas de Constantino. A Vita cria uma imagem positiva contenciosamente de Constantino, e os historiadores modernos vêm frequentemente contestando sua confiabilidade. A mais completa vita secular de Constantino é do anônimo Origo Constantini. Uma obra de data incerta, o Origo concentra-se em acontecimentos militares e políticos, em detrimento de assuntos culturais e religiosos.

Ascensão a Augusto do Ocidente

Nascido em Naisso, na Mésia Superior (actual Niš na Sérvia), filho de Constâncio Cloro (ou Constâncio I Cloro) e da filha de um casal de donos de uma albergaria na Bitínia, Helena de Constantinopla, Constantino teve uma boa educação — especialmente por ser filho de uma mulher de língua grega e haver vivido no Oriente grego, o que facilitou-lhe o acesso à cultura bilíngue própria da elite romana — e serviu no tribunal de Diocleciano depois do seu pai ter sido nomeado um dos dois césares, na altura um imperador júnior, na Tetrarquia em 293. Embora sua condição junto a Diocleciano fosse em parte a de um refém, Constantino serviu nas campanhas do césar Galério e de Diocleciano contra os sassânidas e os sármatas. Quando da abdicação conjunta de Diocleciano e Maximiano em 305, Constâncio seria proclamado augusto, mas Constantino seria descartado como césar em proveito de Flávio Severo (também conhecido modernamente como Severo II, título que jamais usou, para não ser confundido com o grande imperador do século anterior, Septímio Severo).

Termas construídas por Constantino em Trier,

capazes de atender milhares de pessoas.

Pouco antes da morte de seu pai, em 25 de julho de 306, Constantino conseguiu a permissão de Galério para reunir-se a ele no Ocidente, chegando a fazer uma campanha juntamente com Constâncio Cloro contra os pictos, estando junto do leito de morte do seu pai em Eburacum (atual York) na Britânia, o que lhe permitiu impor o princípio da hereditariedade em seu proveito, proclamando-se “césar” e sendo reconhecido como tal por Galério, então feito “augusto” do Oriente. Desde o início de seu reinado, assim, Constantino tinha o controle da Britânia, Gália, Germânia e Hispânia, com sua capital em Trier, cidade que fez embelezar e fortificar.

Nos dezoito anos seguintes, combateu uma série de batalhas e guerras que o fizeram o governador supremo do Império Romano. Como Maximiano desejava retomar sua posição de augusto, da qual havia-se afastado a contragosto junto com Diocleciano, Constantino recebeu-o na sua corte e aliou-se a ele por um casamento em 307 com a filha de sete anos de Maximiano, Fausta, o que lhe permitiu ser reconhecido tacitamente como Augusto em 308 por Galério numa conferência dos tetrarcas em Carnuntum (atual Petronell-Carnuntum na Áustria). Em 309, no entanto, Constantino enfrentaria seu sogro, que tentava recuperar abertamente o poder, capturando-o em Marselha e fazendo assassiná-lo. Em 310, Constantino seria formalmente reconhecido como Augusto por Galério. Severo havendo sido entrementes eliminado, em 307, por Magêncio, filho de Maximiano que havia-se proclamado imperador em Roma, Constantino deveria acabar por enfrentrar seu cunhado para conseguir o domínio completo do Ocidente romano. Após uma série de mediações fracassadas e lutas confusas, Constantino, após apoiar o usurpador africano Lúcio Domício Alexandre, cortando o suprimento de trigo de Roma, de 308 a 309, desceu em 312 até a Itália para eliminar Magêncio.

Essas guerras civis constantes e prolongadas fizeram de Constantino, antes de mais nada, um reformador militar, que, para aumentar o número de tropas a sua disposição imediata, constituiu o cortejo militar do imperador (comitatus) num corpo de tropas de elite auto-suficiente – um verdadeiro exército de campanha — principalmente pelo recrutamento de grande número de germanos que se apresentavam ao exército romano nos termos de diversos tratados de paz, a começar pelo chefe dos alamanos Chrocus, que teve um papel decisivo na aclamação de Constantino como Augusto.

Moeda de bronze (follis) de Constantino, cunhada em Lugduno, na Gália, por volta de 310, com o Deus Sol Invictus.

Religião

O fato de Constantino ser um imperador de legitimidade duvidosa foi algo que sempre influiu nas suas preocupações religiosas e ideológicas: enquanto esteve diretamente ligado a Maximiano, ele apresentou-se como o protegido de Hércules, deus que havia sido apresentado como padroeiro de Maximiano na primeira tetrarquia. Ao romper com seu sogro e eliminá-lo, Constantino passou a colocar-se sob a proteção da divindade padroeira dos imperadores-soldados do século anterior, Deus Sol Invicto, ao mesmo tempo que fez circular uma ficção genealógica (um panegírico da época, para disfarçar a óbvia invenção, falava, dirigindo-se retoricamente ao próprio Constantino, que se tratava de fato “ignorado pela multidão, mas perfeitamente conhecido pelos que te amam”) pela qual ele seria o descendente do imperador Cláudio II — ou Cláudio Gótico — conhecido pelas suas grandes vitórias militares, por haver restabelecido a disciplina no exército romano, e por ter estimulado o culto ao Sol.

Constantino acabou, no entanto, por entrar na História como primeiro imperador romano a professar o cristianismo, na sequência da sua vitória sobre Magêncio na Batalha da Ponte Mílvio, em 28 de outubro de 312, perto de Roma, que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão. Segundo a tradição, na noite anterior à batalha sonhou com uma cruz, e nela estava escrito em latim:

Cquote1.svg In hoc signo vinces” Cquote2.svg

— “Sob este símbolo vencerás”

De manhã, um pouco antes da batalha, mandou que pintassem uma cruz nos escudos dos soldados e conseguiu uma vitória esmagadora sobre o inimigo. Esta narrativa tradicional não é hoje considerada um fato histórico, tratando-se antes da fusão de duas narrativas de fatos diversos encontrados na biografia de Constantino pelo bispo Eusébio de Cesareia.

No entanto, é certo que Constantino era atraído, enquanto homem de Estado, pela religiosidade e pelas práticas piedosas — ainda que se tratasse da piedade ritual do paganismo: o senado, ao erguer em honra a Constantino o seu arco do triunfo, o Arco de Constantino, fez inscrever sobre este que sua vitória devia-se à “inspiração da divindade”(instinctu divinitatis mentis), o que certamente ia ao encontro das ideias do próprio imperador. Até um período muito tardio de seu reinado, no entanto, Constantino não abandonou claramente sua adoração com relação ao deus imperial Sol, que manteve como símbolo principal em suas moedas até 315.

Cristograma de Constantino

Só após 317 é que ele passou a adotar clara e principalmente lemas e símbolos cristãos, como o “chi-rô”, emblema que combinava as duas primeiras letras gregas do nome de Cristo (“X” e “P” superpostos). No entanto, já quando da sua entrada solene em Roma em 312, Constantino recusou-se a subir ao Capitólio para oferecer culto a Júpiter, atitude que repetiria nas suas duas outras visitas solenes à antiga capital para a comemoração dos jubileus do seu reinado, em 315 e 326.

A sua adoção do cristianismo pode também ser resultado de influência familiar. Helena, com grande probabilidade, havia nascido cristã e demonstrou grande piedade no fim da sua vida, quando realizou uma peregrinação à Terra Santa, localizou em Jerusalém uma cruz que foi tida como a Vera Cruz e ordenou a construção da Igreja do Santo Sepulcro, substituindo o templo a Afrodite que havia sido instalado no local — tido como o do sepultamento de Cristo — pelo imperador Adriano.

Mas apesar de seu batismo, há dúvidas se realmente ele se tornou cristão. A Enciclopédia Católica afirma: “Constantino favoreceu de modo igual ambas as religiões. Como sumo pontífice ele velou pela adoração pagã e protegeu seus direitos.” E a Enciclopédia Hídria observa: “Constantino nunca se tornou cristão”. No dia anterior ao da sua morte, Constantino fizera um sacrifício a Zeus, e até o último dia usou o título pagão de Sumo Pontífice. E, de fato, Constantino, até o dia da sua morte, não havendo sido batizado, não participou de qualquer ato litúrgico, como a missa ou a eucaristia. No entanto, era uma prática comum na época retardar o batismo, que era suposto oferecer a absolvição a todos os pecados anteriores — e Constantino, por força do seu ofício de imperador, pode ter percebido que suas oportunidades de pecar eram grandes e não desejou “desperdiçar” a eficácia absolutória do batismo antes de haver chegado ao fim da vida.

Qualquer que tenha sido a fé individual de Constantino, o fato é que ele educou seus filhos no cristianismo, associou a sua dinastia a esta religião, e deu-lhe uma presença institucional no Estado romano (a partir de Constantino, o tribunal do bispo local, a episcopalis audientia, podia ser escolhida pelas partes de um processo como tribunal arbitral em lugar do tribunal da cidade). E quanto às suas profissões de fé pública, num édito do início de seu reinado, em que garantia liberdade religiosa, ele tratava os pagãos com desdém, declarando que lhes era concedido celebrar “os ritos de uma velha superstição”.

Esta clara associação da casa imperial ao Cristianismo criou uma situação equívoca, já que o cristianismo tornou-se a religião “pessoal” dos imperadores, que, no entanto, ainda deveriam regular o exercício do paganismo — o que, para um cristão, significava transigir com a idolatria. O paganismo retinha ainda grande força política — especialmente entre as elites educadas do Ocidente do império — situação que só seria resolvida por um imperador posterior, Graciano, que renunciaria ao cargo de Sumo Pontífice em 379 — sendo assassinado quatro anos depois por um usurpador, Magno Máximo. Somente após a eliminação de Máximo e de outro usurpador pagão, Flávio Eugénio, por Teodósio I é que o cristianismo tornar-se-ia a única religião legal (395).

O imperador romano Constantino influenciou em grande parte na inclusão na igreja cristã de dogmas baseados em tradições. Uma das mais conhecidas foi o Édito de Constantino, promulgado em 321, que determinou oficialmente o domingo como dia de repouso, com exceção dos lavradores — medida tomada por Constantino utilizando-se da sua prerrogativa de, como Sumo Pontífice, de fixar o calendário das festas religiosas, dos dias fastos e nefastos (o trabalho sendo proibido durantes estes últimos). Note-se que o domingo foi escolhido como dia de repouso, não apenas em função da tradição sabática judaico-cristã, como também por ser o “dia do Sol” — uma reminiscência do culto de Sol Invictus.

Reformas religiosas, militares e administrativas

Constantino: mosaico em Hagia Sofia

Constantino legalizou e apoiou fortemente a cristandade por volta do tempo em que se tornou imperador, com o Édito de Milão, mas também não tornou o paganismo ilegal ou fez do cristianismo a religião estatal única. Na sua posição de Pontifex maximus— cargo tradicionalmente ocupado por todos os imperadores romanos, e que tinha a ver com a regulação de toda e qualquer prática religiosa no império — estabeleceu as condições do seu exercício público e interferiu na organização da hierarquia quando convocado, seguindo uma prática, no que diz respeito aos cristãos, que já havia sido inaugurada por um imperador pagão,Aureliano, que fora chamado a arbitrar uma querela entre o bispado de Antioquia e o bispado de Roma, que excomungara Paulo de Samosata, bispo de Antioquia, por heresia. O Imperador reafirmara o que já era do direito circunscricional da Igreja Romana — ou seja, que as igrejas cristãs locais, no que diz respeito a sua organização administrativa — inclusive quanto a eleição dos bispos — deveriam reportar-se à igreja de Roma, a capital.

A sua vitória em 312 sobre Magêncio resultou na ascensão ao título de augusto ocidental, ou soberano da totalidade da metade ocidental do império, reconhecida pelo pagão Licínio, único augusto do Oriente após a eliminação de Maximino Daia. A vitória de Constantino teve uma consequência militar imediata: Constantino aboliu definitivamente a guarda pretoriana, que havia sustentado Magêncio e, com ela, os interesses políticos da aristocracia italiana, substituindo-a por um corpo de tropas de elite ligadas à pessoa do imperador, as scholae palatinae, que, a partir daí, seriam o núcleo do sistema militar romano, enquanto os velhos corpos de tropa territoriais eram negligenciados. As scholae eram principalmente regimentos de cavalaria, que serviam como uma força-tarefa ligada à pessoa do imperador, e seu principal objetivo era garantir uma capacidade de ação imediata em caso de guerra civil ou externa; quanto às forças de defesa territorial, os limitanei, estas acabaram reduzindo-se a uma mera força policial de fronteira, entrando em declínio imediato da sua capacidade combativa. O objetivo destas reformas militares era principalmente político, colocando a quase totalidade das forças militares móveis à disposição imediata do imperador — com a exceção de certas unidades territoriais que eram equiparadas às forças móveis e chamadas pseudocomitatenses — concentradas em áreas urbanas onde pudessem ser mantidas abastecidas dos suprimentos que eram agora a maior parte do soldo militar (os pagamentos em dinheiro tornando-se recompensas esporádicas pagas quando da ascensão ou dos jubileus de ascensão do imperador ao trono).

Quando Licínio expulsou os funcionários cristãos da sua corte, Constantino encontrou um pretexto para enfrentar seu colega e, tendo negada permissão para entrar no Império do Oriente durante uma campanha contra os sármatas, fez disto a razão para derrotar e eliminar Licínio em 324, quando tornou-se imperador único.

Apesar de a Igreja ter prosperado sob o auspício de Constantino, ela própria decaiu no primeiro de muitos cismas públicos. Constantino, após ter unificado o mundo romano, convocou o Primeiro Concílio de Niceia, em um grande centro urbano da parte oriental do império, em 325, um ano depois da queda de Licínio, a fim de unificar a Igreja cristã, pois com as divergências desta, o seu trono poderia estar ameaçado pela falta de unidade espiritual entre os romanos. Duas questões principais foram discutidas em Niceia (atual İznik): a questão da Heresia Ariana que dizia que Cristo não era divino, mas o mais perfeito das criaturas, e também a data da Páscoa, pois até então não havia um consenso sobre isto.

Constantino só foi batizado e cristianizado no final da vida. Ironicamente, Constantino poderá ter favorecido o lado perdedor da questão ariana, uma vez que ele foi batizado por um bispo ariano, Eusébio de Nicomédia (que não deve ser confundido com o biógrafo do imperador, Eusébio de Cesareia). A inclinação que Constantino e seu filho e sucessor na condição de augusto único, Constâncio II, demonstraram pelo arianismo, é bastante explicável, na medida em que ambos tentaram apresentar a figura do imperador como um análogo do Cristo ariano: uma emanação divina, reflexo terreno do Verbo. A tempestuosa relação de Constantino com a Igreja da época dá conta dos limites da sua atuação no estabelecimento da Ortodoxia: pouco antes de sua morte, em 335, ele mandou exilar, na capital imperial de Trier, o patriarca de Alexandria Atanásio, campeão da ortodoxia, por suas violentas atitudes anti-arianas, e apesar do fato de que Atanásio continuou a ser perseguido pelos sucessores de Constantino, o abertamente ariano Constâncio II e o pagão Juliano, o Apóstata, foi a sua visão teológica que acabou por prevalecer.

Estátua de Constantino em York, onde foi aclamado augusto

Ao mesmo tempo que velava pela unidade religiosa do império, Constantino quis resolver o problema da divisão da elite dirigente numa aristocracia senatorial com acesso exclusivo às “dignidades” (as velhas magistraturas republicanas, sem poderes ou responsabilidades, e transformadas numa mera hierarquia de status) e numa hierarquia burocrática de funcionários imperiais com funções administrativas efetivas e pertencentes à ordem equestre: após 326, os altos funcionários passam à pertencer à ordem senatorial (os clarissimi) e o número de senadores passa de 600 a 2.000, com os requisitos de entrada elevados (em Roma, os ex-questores deixam de ser senadores, e a entrada no senado passa a depender da pretura; na nova capital de Constantinopla, o acesso ao senado seria garantido aos ex-titulares do posto de tribuno da plebe, velha magistratura ressuscitada). Com a entrada do alto pessoal administrativo na ordem senatorial, quaisquer pretensões de independência política da velha aristocracia ficaram eliminadas; a escolha de todos os imperadores subsequentes seria feita exclusivamente na família do imperador ou através do exército. Em contrapartida, no entanto, Constantino parece haver cedido aos senadores no final do seu reinado o direito de elegerem, eles mesmos, questores e pretores e assim determinarem que pessoas queriam fazer ingressar na sua ordem, abandonando a prática da nomeação imperial de novos senadores, a adlectio. O senado, assim, se continuou sem o poder de fazer uma política própria, passou a ter o poder de estabelecer um “cadastro de reserva” da administração imperial. Por outro lado, paralelamente à carreira senatorial “padrão”, a qual se chegava pela eleição às magistraturas, forma-se uma carreira alternativa, pela qual indivíduos não oriundos da aristocracia tradicional tornam-se automaticamente senadores ao serem nomeados pelo imperador para cargos de hierarquia senatorial. Em outras palavras, o título de senador passou a significar uma posição na hierarquia administrativa, e não uma função pública (excetuando-se, aí, o governo local de Roma). O que aconteceu com os senadores romanos foi apenas o exemplo mais notável do que aconteceu em todo o império com sua cristianização: as identidades culturais e políticas locais deixaram de contar diante da hierarquia burocrática central.

Fundação de Constantinopla

Para resolver definitivamente o problema logístico da distância entre a capital e as principais frentes militares da época, sem recorrer ao expediente de uma residência imperial “interina”, Constantino reconstruiu a antiga cidade grega de Bizâncio, que dedicou em 11 de maio de 330 chamando-a de Nova Roma, dotando-a de um Senado e instituições cívicas (catorze regiões, um fórum, distribuições de trigo, um Prefeito do pretório) semelhantes aos da antiga Roma. Tratava-se, no entanto, de uma cidade puramente cristã, dominada pela Igreja dos Santos Apóstolos, junto a qual encontrava-se o mausoléu onde Constantino seria sepultado. Os templos pagãos de Bizâncio foram nela preservados, mas neles foram proibidos os sacrifícios e o culto das imagens dos deuses. Após a morte de Constantino, Bizâncio foi renomeada Constantinopla, tendo-se gradualmente tornado a capital permanente do império. A fundação de Constantinopla foi complementada pelo tratado (foedus) realizado entre Constantino e seus descendentes com os godos, que, a partir de 332, passaram a defender a fronteira do Danúbio e fornecer homens ao exército romano, em troca de abastecimentos. A mudança da capital imperial enfraqueceu a influência do papado de Roma e fortaleceu a influência do bispo de Constantinopla sobre o Oriente, um dos eventos notáveis que provocariam futuramente o Grande Cisma do Oriente.

Sucessão

Um ano depois do Primeiro Concílio de Niceia, em (326), portanto, durante uma viagem solene a Roma para a comemoração dos seus vinte anos de reinado, Constantino mandou matar seu próprio filho e sucessor designado Crispo, um general competente que provavelmente foi suspeito de intrigar para derrubar o pai. Pouco depois, sufocaria sua segunda mulher Fausta num banho sobreaquecido, provavelmente por suspeitar que ela tivesse intrigado contra seu enteado Crispo. Mandou também estrangular o cunhado Licínio, que havia se rendido a ele em troca da vida e chicotear até a morte o seu filho (e sobrinho do próprio Constantino). Foi sucedido por seus três filhos com Fausta: Constantino I, Constante II e Constâncio III, os quais dividiram entre si a administração do império até que, depois de uma série de lutas confusas, Constâncio II emergiu como augusto único.

Apreciações póstumas

Constantino foi uma figura controversa já na sua época: o último imperador pagão, seu sobrinho Juliano, dizia que ele era atraído pelo dinheiro e que buscou acima de tudo, enriquecer a si e seus partidários — traço este (de saber enriquecer seus amigos) que também foi reconhecido pelo historiador Eutrópio e pelo próprio Eusébio de Cesareia. O historiador pagão Zósimo criticou severamente suas reformas militares. Mas como primeiro imperador cristão, Constantino foi reverenciado durante toda a Idade Média, seja pela cristandade oriental, que o tinha como fundador do Império Bizantino — e a Igreja Ortodoxa acabou por canonizá-lo — seja pela ocidental, que, sem atribuir-lhe o status de santo, considerava haver ele criado os Estados Papais, territórios doados ao Papa pela chamada Doação de Constantino. Só com o Iluminismo seu legado começou a ser pesadamente criticado, e o historiador inglês Edward Gibbon, no seu livro clássico sobre a “A história do declínio e queda do império romano” o caracteriza como um general romano de velha cepa a quem o poder absoluto (e, por extensão, o Cristianismo) havia convertido num déspota oriental. Com a secularização da sociedade moderna, a apreciação de Constantino em função exclusivamente das suas reformas religiosas perdeu acuidade – e ele passou a ser analisado em termos da sua própria época, como um dos fundadores, juntamente com Diocleciano, do Baixo-Império (ou Dominato), do qual ele estabeleceu as estruturas políticas e sociais básicas.

A limes danubiana e oriental no tempo de Constantino, com os territórios conquistados no curso das campanhas germano-sarmáticas (de 306 a 337). O mapa representa também o Império Romano pouco depois da morte de Constantino (337), com os territórios “repartidos” entre os seus três filhos (Constante I, Constantino II e Constâncio III).

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330 d.C. -379 d.C.

Ficheiro:Basil-the-Great.jpg

Basílio de Cesareia, também chamado de São Basílio Magno ou Basílio, o Grande (em grego: Ἅγιος Βασίλειος ὁ Μέγας), foi o bispo de Cesareia, na Capadócia (atualmente a cidade de Kayseri, na Turquia). Ele foi um dos mais influentes teólogos a apoiarem o Credo de Niceia e um adversário das heresias que surgiram nos primeiros anos do cristianismo como religião oficial do Império Romano, lutando principalmente contra o arianismo e os seguidores de Apolinário de Laodiceia. Sua habilidade em balancear suas convicções teológicas com suas conexões políticas fez de Basílio um poderoso advogado da posição nicena.

Além de sua obra como teólogo, Basílio ficou conhecido por seu cuidado com os pobres e necessitados. Ele estabeleceu padrões para a vida monástica com foco na comunidade, na oração e no trabalho manual. Juntamente com São Pacômio, ele é lembrando como pai do monasticismo comunal no cristianismo oriental.

Basílio, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa são conhecidos como Padres Capadócios. A Igreja Ortodoxa e a Igreja Católica Oriental agrupam Basílio com Gregório de Nazianzo e João Crisóstomo como os Três Grandes Hierarcas. Ele é reconhecido como Doutor da Igreja na tradição oriental e ocidental.

História

Primeiros anos e educação

Gregório de Nazianzo, grande amigo e colaborador de Basílio,

co-escreveu com ele a “Filocalia”.
Séc. XI. Afresco na Igreja de Chora, em Istambul.

Basílio nasceu na rica família de Basílio, o Velho, um famoso retórico, e Emélia por volta de 330 d.C. em Cesareia na Capadócia. Seus pais eram conhecidos por sua piedade e sua avó materna era uma mártir, executada antes da conversão de Constantino I. Entre os irmãos de Basílio, quatro são geralmente venerados como santos: Macrina, a Jovem, São Naucrácio,Pedro de Sebaste e Gregório de Nissa.

Logo após o nascimento de Basílio, a família se mudou para as terras de sua avó Macrina, que ficavam perto da cidade de Neocesareia. Lá, Basílio foi educado em casa por seu pai e pela avó. Ele foi fortemente influenciado por ela, que tinha sido por sua vez aluna de Gregório Taumaturgo. Após a morte de seu pai, quando ele era ainda adolescente, Basílio retornou para Cesareia para começar a sua educação formal. Lá, ele se encontrou com Gregório de Nazianzo, que se tornaria seu amigo pela vida toda. Juntos, Basílio e Gregório foram estudar em Constantinopla, onde eles puderam ouvir as palestras de Libânio. Finalmente, os dois passaram quase seis anos em Atenas, começando por volta de 349, onde eles conheceram um companheiro de estudos que viria a se tornar o imperador romano Juliano, o Apóstata, grande inimigo do cristianismo.

Basílio deixou Atenas em 356 e, depois de viajar pelo Egito e Síria, ele retornou para Cesareia, onde, por cerca de um ano, ele advogou e ensinou retórica. Um ano depois, a vida de Basílio mudaria radicalmente após ele se encontrar com Eustátio de Sebaste, um bispo carismático e um asceta. Basílio logo abandonou as suas profissões de docente e advogado para dedicar sua vida a Deus. Descrevendo o seu despertar espiritual, Basílio disse:

Muito tempo eu desperdicei com vaidades e gastei quase toda a minha juventude com o trabalho que tive adquirindo uma sabedoria que Deus tornou vã. Então, de repente, como alguém que acorda de um sono profundo, eu virei meus olhos para a maravilhosa luz da verdade do Evangelho e percebi a inutilidade da sabedoria dos príncipes deste mundo, que se transformou em nada.
— Basílio de Cesareia, Epístola 223.2

Arnesi

Após receber o sacramento do batismo, Basílio viajou em 357 para a Palestina,Síria e a Mesopotâmia para estudar o monasticismo e o ascetismo. Mesmo impressionado com a piedade dos ascetas eremitas, o ideal da vida de solitária contemplação tinha pouco apelo com ele. Por outro lado, ele se interessou muito pela vida religiosa comunitária. Após doar suas riquezas aos pobres, ele foi viver solitariamente por um curto período em Neocesareia no Iris. Basílio logo se cansou e, por volta de 359, juntou à sua volta um grupo de discípulos, incluindo seu irmão, Pedro. Juntos, ele fundaram um mosteiro nas terras da família perto de Arnesi, no Ponto. Estavam ali também a sua mãe, Emélia, já viúva, sua irmã Macrina e diversas outras mulheres que se dedicaram também à vida piedosa de oração e obras de caridade. Eustátio de Sebaste já tinha trabalhado na região em prol da vida anacoreta e Basílio o reverenciou por isso, embora eles divergissem sobre diversos pontos dogmáticos, o que gradualmente os separou.

Foi lá que Basílio escreveu suas obras sobre a vida monástica comunitária, que são consideradas fundamentais para o desenvolvimento da tradição monásticas na Igreja Ortodoxa e que o levaram a ser chamado de “Pai do monasticismo comunal ortodoxo”. Em 358, ele escreveu para o seu amigo, Gregório de Nazianzo, pedindo-lhe que se juntasse a ele em Arnesi. Gregório eventualmente concordou e para lá se foi e, juntos, eles colaboraram na construção da “Filocalia”, uma antologia das obras de Orígenes. Depois deste período, Gregório decidiu voltar para junto de sua família em Nazianzo.

Basílio também esteve no Concílio de Constantinopla de 360. E foi lá que ele se juntou pela primeira vez com os homoiousios (vide controvérsia ariana), uma facção semi-ariana que ensinava que o Filho era de uma substância similar à do Pai, não a mesma (uma substância – tese dos homoousios) e não outra (os arianos). Entre seus membros estava Eustátio, o mentor de Basílio no ascetismo. Os homoousios se opunham ao arianismo de Eunômio, mas se recusavam a se juntar aos que apoiavam o Credo de Niceia. Esta posição o colocou em atrito com o seu bispo, Diânio, que era um niceno convicto. Anos mais tarde, Basílio abandonaria os homoousios e se tornaria um defensor dos nicenos.

Cesareia

Em 362, Basílio foi ordenado diácono pelo bispo Melécio de Antioquia. Ele foi convocado por Eusébio e foi ordenado presbítero da Igreja em 365, um ato que foi provavelmente o resultado de suas discordâncias com seus superiores eclesiásticos.

Basílio e Gregório de Nazianzo passaram os próximos anos combatendo a heresia ariana, que ameaçava dividir a região da Capadócia. Os dois amigos então entraram num período de cooperação fraternal muito próxima conforme eles participavam de grandes debates e disputas retóricas na Igreja de Cesareia, causados pela chegada de habilidosos teólogos e retóricos arianos na região. Nos debates públicos subsequentes, presididos por agentes do imperador Valente, Gregório e Basílio emergiram vitoriosos. Esta vitória confirmou para ambos que o futuro para eles estava na administração da Igreja. Basílio assumiu uma posição na administração da Diocese de Cesareia. Relata-se que Eusébio teria se enciumado da reputação e influência que Basílio rapidamente conquistou e permitiu-lhe que voltasse para sua vida reclusa anterior. Posteriormente, porém, Gregório persuadiu Basílio a retornar, o que ele fez, e se tornou um gestor muito eficiente da diocese por muitos anos, mesmo dando quase todo o crédito a Eusébio.

Em 370, Eusébio morreu e Basílio foi escolhido para sucedê-lo, sendo consagrado bispo em 14 de junho de 370. Seu novo posto como bispo de Cesareia também lhe deu poderes de exarca no Ponto e bispo metropolitano de cinco bispos sufragâneos, muitos dos quais foram contra a sua eleição como sucessor de Eusébio.

Suas cartas mostram que ele trabalhou ativamente tentando reformar ladrões e prostitutas. Elas também mostram-no encorajando o clero a não serem tentados pelas riquezas ou pela vida comparativamente mais fácil de um padre, e que ele pessoalmente escolhia candidatos dignos das ordens sagradas. Ele também teve a coragem de criticar funcionários públicos que falhavam na tarefa de prover a justiça ao povo. Ao mesmo tempo, ele pregava todas as manhãs e tardes em sua própria igreja para grandes congregações de fiéis. E, por fim, ele construiu um grande complexo nas redondezas de Cesareia, chamado de Basiliad, que incluía um abrigo para os pobres, um hospício e um hospital.

Seu zelo pela ortodoxia doutrinária não evitou que ele visse os pontos positivos nas teses de seus adversários e, com o objetivo de manter a paz e a caridade, ele se contentava em dispensar o uso da terminologia ortodoxa quando ela podia ser evitada sem sacrificar a verdade. O imperador Valente, que era ariano, enviou seu prefeito Modestus para que tentar ao menos uma solução de compromisso com a facção ariana. A contundente resposta negativa de Basílio fez com que Modestus lhe dissesse que ninguém jamais o havia tratado desta forma, ao que Basílio respondeu “Talvez você jamais teve que lidar com um bispo antes”. Modestus fez seu relato a Valente afirmando que ele acreditava que nada além de violência seria suficiente contra Basílio. O imperador aparentemente não estava inclinado a suar violência e, ao invés disso, emitiu repetidas ordens para que Basílio fosse banido, nenhuma delas efetiva. Valente então foi ele mesmo a uma celebração da liturgia da Festa da Epifania e, na época, ficou tão impressionado com Basílio que doou-lhe terras para a construção do Basiliad.

Basílio entrou em contato com o ocidente e, com a ajuda de Atanásio de Alexandria, tentou superior a sua atitude de desconfiança em relação aos homoousios. As dificuldade tinham se acentuado quando entrou no debate a questão da essência do Espírito Santo. Embora Basílio defendesse objetivamente a consubstancialidade do Espírito com o Pai e com o Filho, ele era dos que, fiéis à tradição oriental, não tolerava que o predicado homoousios ao primeiro. Por esta aproximação, ele foi admoestado pelos mais tradicionais ortodoxos, principalmente os monges, sendo defendido por Atanásio. Ele manteve sua relação com Eustátio de Sebaste, apesar das diferenças dogmáticas. Por outro lado, Basílio foi gravemente ofendido pelos aderentes mais extremados do homoousiono, que pareciam para ele estarem revivendo a heresia sabeliana (que, no afã de defender a consubstancialidade da Trindade, beiravam eliminar a distinção entre Pai, Filho e Espírito Santo).

Ele também se correspondeu com o papa Dâmaso I na esperança de ter um bispo de Roma condenado a heresia onde quer que ela estivesse. A aparente indiferença do papa perturbou o zelo de Basílio e ele se voltou para a tristeza e preocupação. É ainda tema de controvérsia o quanto ele acreditava que sé romana poderia ajudar as igrejas do oriente, com muitos teólogos católicos romanos, alegando a primazia para o bispo de Roma sobre as demais igrejas, tanto em doutrina quanto em poderes eclesiásticos.

Obras

Estátua de São Basílio na Igreja da Theotokos do Sinal, em Moscou.

As principais obras teológicas de Basílio são as suas “Sobre o Espírito Santo”, um lúcido e edificando apelo às Escrituras e às tradições cristãs primitivas (para provar a divindade do Espírito Santo), e a sua “Refutação da Apologia do Ímpio Eunômio”, escrita em 363 ou 364, em três volumes contra Eunômio de Cízico, o principal defensor da forma mais extremada do arianismo conhecida como anomo e anismo.

Ele foi um famoso pregador e muitas de suas homilias, incluindo a série de palestras sobre a Grande Quaresma no Hexamerão (os Seis Dias da Criação), e uma exposição sobre os Salmos foram preservadas. Algumas, como a contra a usura e a contra a carestia em 368, são valiosas pela história moral; outras ilustram a honra devida aos mártires e às relíquias; o “Discurso aos Jovens Gregos sobre a Literatura Grega” da literatura clássica mostra que Basílio foi fortemente influenciado por sua educação, que ensinou-lhe a apreciar a importância propedêutica dos clássicos.

Em suas exegeses, Basílio foi um grande admirador de Orígenes e da necessidade da interpretação espiritual das Escrituras, como sua co-edição da “Filocalia” com Gregório de Nazianzo testemunha. Em sua obra sobre o Espírito Santo, ele afirma que“tomar o sentido literal e parar é como ter o coração coberto pelo véu do literalismo judaico. Lâmpadas são inúteis quando o sol está brilhando.” Ele frequentemente estressava a necessidade de reserva em assuntos doutrinários ou sacramentais. Ao mesmo tempo, ele era contra as alegorias mais ousadas de alguns de seus contemporâneos. Sobre isto, ele escreveu:

Eu conheço as leis da alegoria, embora menos por meu esforço do que pelas obras de outros. Há os que, verdadeiramente, não admitem o senso comum das Escrituras, para os quais água não é água, mas alguma outra coisa, que se vê numa planta, num peixe, o que quer que desejem, que mudam a natureza dos répteis e das bestas para se adequarem às suas alegorias, como os intérpretes de sonhos que explicam visões para fazê-las servirem seus próprios propósitos.
— Basílio de Cesareia, Hexamerão 9.1

A maior parte de suas obras e uma outras poucas espúrias atribuídas a ele estão disponíveis no volume 36 da Patrologia Graeca, que inclui traduções para o latim de variada qualidade. Diversas obras também apareceram no final do século XX na coleção Sources Chrétiennes.

Legado

Contribuições litúrgicas

A maior parte das liturgias que trazem o nome de Basílio não são inteiramente obra do santo na forma atual, mas elas preservam, ainda assim, uma lembrança da atividade de Basílio na reformulação das orações litúrgicas e na promoção da música sacra. Acadêmicos patrísticos concluíram que a chamada “Liturgia de São Basílio” “traz, inequivocamente, a mão, a pena, a mente e o coração de São Basílio Magno”.

Influências no monasticismo

Igreja principal do Mosteiro da Grande Lavra,

em Monte Atos, onde estaria preservada a cabeça de Basílio.

Através de seus exemplos e ensinamentos, Basílio promoveu uma notável moderação nas práticas austeras que eram características anteriores da vida monástica. A ele também se credita a coordenação das tarefas de trabalho e oração para assegurar um balanço correto entre os dois.

Basílio é lembrado como o mais influente autor no desenvolvimento do monasticismo cristão. Não apenas ele é reconhecido como pai do monasticismo ortodoxo, mas historiadores reconhecem que o seu legado se estende também para a igreja ocidental, principalmente pela influência que ele teve sobre São Bento. Acadêmicos patrísticos, como Meredith, afirmam que o próprio Bento teria reconhecido esta influência quando ele escreveu no epílogo de sua “Regra” que seus monges, além da Bíblia, deveriam ler “as confissões dos Padres e seus institutos e suas vidas e a ‘Regra de nosso Santo Padre, Basílio'”.

Os ensinamentos sobre monasticismo, como aparecem suas obras, como seu Small Asketikon, foram transmitidos para o ocidente por Rufino no final do século IV.

Como resultado desta influência, diversas ordens religiosas no cristianismo oriental trazem o nome de Basílio. Na Igreja Católica Romana, os padres Basílios, também conhecidos como Congregação de São Basílio, também homenageiam o santo.

Devoção

Há diversas relíquias de São Basílio por todo o mundo. Uma das mais importantes é a sua cabeça, que estaria preservada até hoje no Mosteiro da Grande Lavra, em Monte Atos, na Grécia.

Sobre ele, assim se manifestou o Papa Bento XVI:

Na realidade, São Basílio criou uma vida monástica muito particular: não fechada à comunidade da Igreja local, mas aberta a ela. Seus monges formavam parte da Igreja particular, eram seu núcleo animador que, precedendo aos demais fiéis no seguimento de Cristo e não só da fé, mostrava sua firme adesão a Cristo – o amor a ele -, sobretudo com obras de caridade. Estes monges, que tinham escolas e hospitais, estavam ao serviço dos pobres; assim mostraram a integridade da vida cristã.

O Papa João Paulo II, falando da vida monástica, escreveu:

“ Muitos opinam que essa instituição tão importante em toda a Igreja como é a vida monástica ficou estabelecida, para todos os séculos, principalmente por São Basílio ou que, pelo menos, a natureza da mesma não teria ficado tão propriamente definida sem a sua decisiva aportação. “

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340 d.C. — 385 d.C.

Prisciliano de Ávila (Galécia, 340 d.C. — Tréveris, 385 d.C.) foi um bispo herege hispânico da cidade de Ávila (em latim: Abila), fundador do priscilianismo. Foi, junto a outros companheiros, o primeiro herege justiçado pela Igreja Católica através de uma instituição civil.

Origens e primeiros passos

Acredita-se que nasceu na Hispânia ocidental, provavelmente na província romana da Galécia, no seio de uma família senatorial. Por volta de 370 viaja a Burdigala (Bordéus) para se formar com o retórico Delphidius. Nos arredores desta cidade funda uma comunidade de tendência rigorista junto ao seu mentor e a mulher deste, Eucrócia. É reconhecida uma relação com a filha de ambos, Prócula, embora São Jerônimo faz menção a uma mulher chamada Gala como seu casal oficial. Seu principal adversário, Itácio de Ossonoba (atual Faro), atribui seus conhecimentos de astronomia e magia a um tal Marco de Memphis, porém este nome parece remitir a um mago alexandrino do século I citado por Santo Ireneu no seu Adversus haereses. Por volta de 379, durante o consulado de Ausônio e de Olybrio, volta ao noroeste peninsular e começa seu período predicante. As suas ideias obtiveram grande sucesso, em especial entre as mulheres e as classes populares, pela sua recusa à união da Igreja com o Estado imperial e à corrupção e enriquecimento das hierarquias. Frente da rápida extensão dos seus ensinos, Higínio de Córdova, o sucessor de Ósio de Córdoba, envia uma carta informando da situação ao bispo da sede metropolitana de Emerita Augusta (capital daDiocese da Hispânia), Hidácio.

O conflito

Estes dois bispos, junto a Itácio de Ossonoba, convocam o Concílio de Caesaraugusta (atual Saragoça) em 380 (outras fontes situam-no uns anos antes, em 378), com o fim de condenar as ideias priscilianistas. A este sínodo acudiram dois bispos aquitanos e dez hispânicos, o que parece indicar uma forte e rápida expansão do movimento ascético iniciado por Prisciliano, mas a ausência dos dois principais bispos acusados de priscilianistas, Instáncio e Salviano, evita a condenação em firme. As atas dizem que o bispo de Astorga, Simpósio (pai de Dictinio, quem anos depois ocupará essa sede) abandonou o Concílio o segundo dia. Este prelado ocupará anos depois um lugar relevante entre os discípulos do herege galaico. O bispo Valério, anfitrião do sínodo, recolhe as recomendações de Dámaso, bispo de Roma, de evitar a condenação in absentia. Pouco depois esses dois bispos (Instáncio e Salviano) elevarão Prisciliano à sede vacante de Abula (Ávila).

Numa tentativa de acercar posturas, Instáncio e Salviano viajam a Emerita Augusta (Mérida) para se entrevistar com Hidácio, mas vêem-se obrigados a fugir de uma turba de exaltados arengada pelo bispo metropolitano.

Houve então um nutrido cruzamento de acusações epistolares entre priscilianistas e ortodoxos. É preciso levar em conta que a extensão dos ensinos de Prisciliano ocorre em todos os estratos sociais, incluindo muitas famílias influentes de quase todas as províncias hispânicas. Finalmente, uma carta enviada por Hidácio a Ambrósio, bispo de Mediolanum (Milão), onde se encontra a corte imperial, convence este para obter um rescrito do imperador Graciano excomungando e banindo das suas sedes a Prisciliano e seus seguidores.

A viagem

Corre o ano de 382 e Prisciliano decide viajar a Roma para se defender, mas o bispo de Roma, Dámaso (em plena pugna por obter a primacia da sede romana e converter-se, assim, no primeiro Papa “oficial”), bem como de família oriunda de Hispânia, recusa recebê-los por não se considerar competente para anular um rescrito do imperador. Finalmente viajam a Milão, e aproveitam a ausência de Graciano para convencer seu magister officiorum de que anule o anterior decreto imperial.

Assim regressa para a Hispânia, reafirmando a situação do seu grupo e conseguindo, de passagem, que Itácio seja acusado de perturbador da Igreja. O procônsul Volvêncio ordena a detenção do bispo antipriscilianista e este vê-se obrigado a fugir para Civitas Treverorum (Tréveris), sob o amparo do bispo Britto.

Em 383 o também hispânico Magno Máximo, governador da Britânia, cruza para a Gália no comando de 130 000 soldados fazendo fugir a Graciano, a quem finalmente assassina numa emboscada nas florestas de Lugdunum (Lyon). As suas legiões nomeiam-no novo imperador do Ocidente, mas esta nomeação não é vista com bons olhos por Teodósio I,imperador do Oriente. Esta situação delicada faz buscar apoios na Igreja Católica,por sua vez precisada de amparo institucional para se enfrentar aos numerosos movimentos dissidentes que a assediam

(arianos, rigoristas, ebionitas, patripassianos, novacianos, nicolaítas, ofitas, maniqueus,

homuncionitas, catáfrigos, borboritas, ou os próprios priscilianistas).

A condenação

Nesse matrimônio de conveniência enquadra-se o desenvolvimento posterior dos acontecimentos: a Igreja oficial enfrenta-se com um movimento popular muito estendido por toda a península Ibérica e boa parte das Gálias, e Magno Máximo deseja oferecer uma mão tendida em forma de condenação oficial ao priscilianismo. Porém, a aplicação de uma sentença por heresia implica a confiscação por parte do Estado de todos os templos da seita, o que não interessa à hierarquia eclesiástica nem serve aos interesses do imperador. Assim é concebido um processo judiciário ad hoc que visa condenar os bispos hispânicos por maleficium (bruxaria). Esta sentença, mais favorável às arcas do novo imperador, inclui o confisco de todas as propriedades pessoais dos acusados, os quais pertenciam a pudentes famílias hispânicas, sem afetar o patrimônio eclesiástico.

É convocado, então, um novo concílio em Bordéus ao qual decidem acudir Prisciliano e vários dos seus seguidores, e no qual a heresia priscilianista é condenada de novo, mas somente obtém de fato a deposição de Instáncio da sua sede. Durante a celebração deste conclave uma multidão alheada lapida Urbica, uma discípula de Prisciliano. Este abandona o conclave e dirige-se a Norte, a Tréveris, na Germânia Superior, onde Máximo estabeleceu sua corte, para convencer o imperador de que tercie em favor do seu grupo, sem saber que ali Itácio de Ossonoba já teceu a rede que acabará com a sua vida.

Em 385 Prisciliano chega a Tréveris, onde é acusado, através de Evódio, prefeito do imperador, da prática de rituais mágicos que incluem danças noturnas, o uso de ervas abortivas e a prática da astrologia cabalística.

Após obter mediante tortura uma confissão do mesmo Prisciliano,11 estabelecendo assim os precedentes da Inquisição (antecessora da atual Congregação para a Doutrina da Fé), é decapitado junto aos seus seguidores Felicíssimo, Armênio, Eucrócia (a viúva de Delphidius), Latroniano, Aurélio e Asarino. Todos eles se tornam os primeiros hereges justiçados pela Igreja Católica através de uma instituição civil (secular).

Obras e redescoberta

Algumas obras de Prisciliano foram consideradas ortodoxas e não foram queimadas. Como exemplo, ele dividiu as epístolas paulinas (incluindo a Epístola aos Hebreus) numa série de textos sobre seus pontos teológicos e escreveu uma introdução para cada um. Estes cânones sobreviveram numa forma editada por Peregrinus. Eles contêm um forte apelo a uma vida pessoal de ascetismo e pureza, incluindo o celibato e a abstinência de carne e de vinho, reafirma os dons carismáticos de todos os crentes e obriga ao estudo das escrituras. Prisciliano também atribuiu considerável peso nos livros apócrifos, não como sendo inspirados, mas como úteis para distinguir a verdade do erro.

Há muito se acreditava que todas as obras de Prisciliano tinham perecido até Georg Schepss descobrir em 1885 na Baviera, na Biblioteca da Universidade de Würzburg, um manuscrito no qual encontra onze tratados. O diretor da biblioteca, Doellinger, sugere a autoria de Prisciliano, que finalmente confirma, e os tratados publicam-se em 1889. Os títulos desses onze tratados são: Liber Apollogeticus, de caráter doutrinal e no qual defende sua ortodoxia; Liber ad Damasum, escrito ao bispo de Roma, Dámaso, e similar ao anterior; Liber de fide et Apocryphis , no qual defende a leitura de textos apócrifos; Tratatus PaschaeTratatus GenesisTratatus ExodiTratatus primi PsalmiTratatus tertii PsalmiTratatus ad populum I (incompleto) e II e Benedictio super fidelis. Também se revela que é Prisciliano, e não Jerónimo, como se acreditava, o autor dos Canones in Pauli apostoli epistolas, presentes em muitas bíblias europeias. Os seus tratados e cânones publicaram-se na Espanha em 1975. Já em 1882, Marcelino Menéndez Pelayo publicara alguns de eles na História dos heterodoxos espanhóis.

De acordo com a introdução de Raymond Brown na sua “Epístola de João”, a origem da Comma Johanneum, uma breve interpolação na Primeira Epístola de João conhecida desde o século IV d.C. parece ter sido a obra em latim Liber Apologeticus de Prisciliano.

Priscilianismo

Tumba

Catedral de Santiago de Compostela, tumba de Prisciliano

Em 813 um eremita chamado Pelágio comunica a Teodomiro, bispo de Iria Flávia, que na floresta da sua diocese chamado Libredón vêem-se umas luzes estranhas. O bispo referirá depois ao rei Afonso II o Casto que, buscando a origem das luzes, encontrou um sepulcro, que não duvidou em atribuir imediatamente ao apóstolo Santiago. A notícia tornou-se oficial com o Papa Leão III.

Na realidade as primeiras novas (desde os textos bíblicos) de que o apóstolo tivera viajado de maneira póstuma à Hispânia aparecem, precisamente, na Hispânia, e precisamente nesse século. O primeiro texto escrito que faz referência a esta lenda é o gravado no Tumbo A da Catedral de Santiago de Compostela, que reproduz a ordem de Afonso II o Casto de construir uma igreja em honra de Santiago. Este texto é datado de 829 ou 834, conforme diferentes autores. Outras fontes que citam o fenômeno de veneração emergente são o martirológio de Floro de Lyon (segundo terço do século IX) ou a Crônica de Sampiro (ano 1000).

Em 893 os reis Afonso e Jimena doam a Igreja de Arcos e suas possessões a Santiago, pedindo em troca o perdão dos pecados e a vitória sobre os inimigos. Doações similares sucedem-se em anos posteriores, começando a ser registada a notícia de peregrinos que acorrem para venerar os restos do apóstolo.

É durante o século X que o fenômeno da peregrinação começa a adquirir intensidade. Em 1126 o Bispo Gelmires termina as obras da Catedral e ascende a sua sé à categoria de arcebispado, transladando-se definitivamente de Iria Flávia para Compostela.

Em 1900 o hagiógrafo Louis Duchesne publicou um artigo no qual sugestiona que em Compostela está enterrado Prisciliano, baseando-se na viagem que seus discípulos fizeram com os restos mortais do herege até à sua terra natal. Posteriormente Sánchez-Albornoz ou Unamuno difundiram esta hipótese alternativa à tradição cristã, que se tornou popular.

Opondo-se a esta teoria, monsenhor Guerra Campos indica a existência de um lugar que poderia ser o lugar de enterramento a saber de Prisciliano: Os Martores, pertencente à paróquia de San Miguel de Valga, na província de Pontevedra. A teoria de Guerra Campos é baseada na denominação popular segundo a qual os discípulos justiçados em Tréveris foram conhecidos, até muito tempo depois da sua morte: “os mártires” (em galego: “os mártores”, sendo este o único topônimo destas características na Galiza. Uma última teoria estabelece o possível lugar de enterramento de Prisciliano em Santa Eulalia de Bóveda, localidade próxima a Lugo.

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412 d.C. – 485 d.C.

Proclo Lício (em latim: Proclus Lycaeus; Constantinopla, 8 de fevereiro de 412 — 17 de abril de 485), chamado de Proclo Diádoco (“Sucessor”; em grego: Πρόκλος ὁ Διάδοχος, transl. Próklos ho Diádokhos), foi um filósofo neoplatônico grego do século V. Teve o mérito de desenvolver a corrente de pensamento baseada em Platão, iniciada por Plotino e depois expandida por Porfírio e Jâmblico. Proclo combina os seu próprios pontos-de-vista com os de seus mestres – Plutarco, Siriano de Alexandria,Porfírio e Jâmblico.

Biografia

Proclo nasceu em Constantinopla, de uma próspera família da Lícia na cidade de Xanto, seu pai, Patrício, era um advogado e estava em atividade na época, mas retornou depois para Xanto onde Proclo recebeu sia educação básica. Sabe-se que seus pais eram pagãos convictos (Marino de Neápolis os descreve como “de virtude excepcional”) de modo que é interessante como seu Partrício operava durante o império de Teodósio II.

De Xanto, Proclo se mudou para a Alexandria onde seus estudo foram conduzidos pelo retórico Leonas que o recebeu e o tratou como filho, através de Leonas, Proclo foi apresentada para os mais distintos mestres da Alexandria que logo o ficaram cativados por sua habilidade, caráter e modos. Ele estudou gramática com Órion, depois aprendeu latim para como seu pai, dedicar-se ao estudo da jurisprudência. Leonas precisou fazer uma viagem para Bizâncio e levou o jovem Proclo, de modo que este continuou seus estudos, mas ao voltar para Alexandria Proclo abandonou a retórica e a legislação para dedicar-se à filosofia da qual seu instrutor foi Olimpiodoro, o Velho. Ele também aprendeu matemática com Heron.

Seja pela confusão de suas doutrinas ou pela indistinção de seu modo de ensiná-las, Olimpiodoro raramente era compreendido por seus discípulos, porém Proclo, graças ao seu grande poder de memorização e compreensão, se tornou capaz de repetir todas as aulas aos seus colegas ao final de cada aula, quase que palavra por palavra, de acordo com Marino de Neápolis, Proclo sabia de cor todos os tratados filosóficos de Aristóteles. Olimpiodoro ficou tão impressionado com os feitos de Proclo, que concedeu a ele a mão de sua própria filha.

Obra

Sua obra pode ser dividida em duas partes. Na primeira parte estão os seus Memoranda ou comentários sobre o pensamento platônico, o primeiro deles escrito quando Proclo tinha 28 anos. Dizem respeito aos diálogos platônicos – A RepúblicaTimeuAlcibíadesParmênides e Crátilo. Nesses trabalhos, Proclo analisa e reafirma o pensamento de Platão, que, na época, era muitas vezes mal interpretado.

A segunda parte é de conteúdo teológico, destacando-se os seis livros que constituem a Theologia Platonica, Chrestomatheia, Hymni, Epigrammata e outros. Em razão da perseguição cristã, o conhecimento da religião grega estava fadado ao desaparecimento. Proclo ensinou o simbolismo dos mitos gregos e analisou-os com grande cuidado e sabedoria. Afirmou, por exemplo, que nos mitos gregos o “casamento é a união indivisível de forças criativas”.

Homem de grande cultura, Proclo era também fascinado pela ciência, particularmente pela astronomia. Sua obra Hypotyposis é uma introdução às teorias astronômicas de Hiparco e Ptolomeu, na qual descreve a teoria matemática dos planetas baseada nos epiciclos e nos excêntricos.

Escreveu também um comentário ao primeiro livro dos Elementos de Euclides, uma fonte essencial sobre a história da matemática grega.

Até o fim do quinto século Porfírio, Jâmblico e Proclos continuaram a obra de Plotino, à qual incorporaram outros elementos especificamente religiosos, como uma teoria de anjos, algumas práticas rituais ligadas à magia, e seguindo o mestre, Platão, uma teoria da reencarnação. Sabe-se que as idéias de Plotino foram transmitidas ao Cristianismo graças à influência de Proclo, ao expor os escritos do Pseudo-Dionísio, o Areopagita – textos constituintes do misticismo cristão, que foram inicialmente atribuídos a um ateniense convertido por Paulo de Tarso. A ideia do êxtase, que une a criatura ao criador, é essencialmente a mesma ideia plotiniana da união da alma com o Uno.

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350 d.C. – 415 d.C.

Ficheiro:Hypatia portrait.png

Hipátia (ou Hipácia; em grego: Υπατία, transl. Ypatía) de Alexandria (350–370–8 de março de 415) foi uma neoplatonista grega e filosofa do Egito Romano, a primeira mulher documentada como sendo matemática. Como chefe da escola platônica em Alexandria, também lecionou filosofia e astronomia.

Como neoplatonista, pertencia à tradição matemática da Academia de Atenas, representada por Eudoxo de Cnido e era da escola intelectual do pensador Plotino que a incentivou estudar Lógica e Matemática no lugar de investigação empírica e a estudar Direito em vez de ciências da natureza.

De acordo com a única fonte contemporânea, Hipátia foi assassinada por uma multidão de cristãos depois de ser acusada de exacerbar um conflito entre duas figuras proeminentes na Alexandria: o governador Orestes e o bispo de Alexandria, Cirilo de Alexandria.

Kathleen Wider propõe que o assassinato de Hipátia marcou o fim da Antiguidade Clássica, e Stephen Greenblatt observa que o assassinato “efetivamente marcou a queda da vida intelectual na Alexandria”. Por outro lado, Maria Dzielska e Christian Wildberg nota que filosofia helenística continuou a florescer nos séculos V e VI, e, talvez, até a era de Justiniano.

1 Biografia

Hipátia era filha de Téon de Alexandria, um renomado filósofo, astrônomo, matemático, autor de diversas obras e professor em Alexandria. Criada em um ambiente de idéias e filosofia, tinha uma forte ligação com o pai, que lhe transmitiu, além de conhecimentos, a forte paixão pela busca de respostas para o desconhecido. Diz-se que ela, sob tutela e orientação paternas, submetia-se a uma rigorosa disciplina física, para atingir o ideal helênico de ter a mente sã em um corpo são.

Hipátia estudou na Academia de Alexandria, onde devorava conhecimento: matemática, astronomia, filosofia, religião, poesia e artes. A oratória e a retórica também não foram descuidadas.

Alguns autores pensam que, quando adolescente, viajou para Atenas, para completar a educação na Academia Neoplatônica, onde não demorou a se destacar pelos esforços para unificar a matemática de Diofanto com o neoplatonismo de Amónio Sacas e Plotino, isto é, aplicando o raciocínio matemático ao conceito neoplatônico do Uno (mônada das mônadas). Ao retornar, já havia um emprego esperando por ela em Alexandria: seria professora na Academia onde fizera a maior parte dos estudos, ocupando a cadeira que fora de Plotino. Aos 30 anos já era diretora da Academia, sendo muitas as obras que escreveu nesse período.

Um dos seus alunos foi o notável filósofo e bispo Sinésio de Cirene (370 – 413), que lhe escrevia freqüentemente, pedindo-lhe conselhos. Através destas cartas, sabemos que Hipátia desenvolveu alguns instrumentos usados na Física e na Astronomia, entre os quais o hidrômetro.

Sabemos também que desenvolveu estudos sobre a Álgebra de Diofanto (“Sobre o Cânon Astronômico de Diofanto”), tendo escrito um tratado sobre o assunto, além de comentários sobre os matemáticos clássicos, incluindo Ptolomeu. Em parceria com o pai, escreveu um tratado sobre Euclides.

Ficou famosa por ser uma grande solucionadora de problemas. Matemáticos confusos, com algum problema em especial, escreviam-lhe pedindo uma solução. E ela raramente os desapontava. Obcecada pelo processo de demonstração lógica, quando lhe perguntavam porque jamais se casara, respondia que já era casada com a verdade.

O seu fim trágico se desenhou a partir de 412, quando Cirilo foi nomeado Patriarca de Alexandria, título de dignidade eclesiástica, usado em Constantinopla, Jerusalém e Alexandria. Ele era um cristão fervoroso, que lutou toda a vida defendendo a ortodoxia da Igreja e combatendo as heresias, sobretudo o Nestorianismo, que negava a Divindade de Jesus Cristo e a Maternidade Divina de Maria.

2 Mudança do paradigma pagão para o cristão

O reinado de Teodósio I (379-392) marca o auge de um processo de transformação do Cristianismo, que efetivamente se torna a religião oficial do estado. Em 391, atendendo pedido do então Patriarca de Alexandria, Teófilo, ele autorizou a destruição do Templo de Serápis (não confundir com o Museu e a Biblioteca existentes em Alexandria, que não tinham nenhuma relação física com este templo), um vasto santuário pagão onde eram oferecidos sacrifícios de sangue, segundo os relatos dos historiadores contemporâneos Sozomeno e Tirânio Rufino.

Embora a legislação de 393 procurasse coibir distúrbios, surtos de violência popular entre cristãos e pagãos tornaram-se cada vez mais frequentes em Alexandria, principalmente após a ascensão de Cirilo ao Patriarcado.

3 Morte

“Hipátia antes de ser morta na igreja”, pintura de Charles William Mitchell, 1885

De acordo com o relato de Sócrates, o Escolástico, numa tarde de março de 415, quando regressava do Museu, Hipátia foi atacada em plena rua por uma turba de cristãos enfurecidos. Ela foi arrastada pelas ruas da cidade até uma igreja, onde foi cruelmente torturada até a morte. Depois de morta, o corpo foi lançado a uma fogueira.

Segundo o mesmo historiador, tudo isto aconteceu pouco tempo depois de Orestes, prefeito da cidade, ter ordenado a execução de um monge cristão chamado Amónio, ato que enfureceu o bispo Cirilo e seus correlegionários. Devido à influência política que Hipátia exercia sobre o prefeito, é bastante provável que os fiéis de Cirilo a tivessem escolhido como uma espécie de alvo de retaliação para vingar a morte do monge. Neste período em que a população de Alexandria era conhecida pelo seu caráter extremamente violento, Jorge de Laodiceia (m. 361) e Protério (m. 457), dois bispos cristãos, sofreram uma morte muito similar à de Hipátia: o primeiro foi atado a um camelo, esquartejado e os seus restos queimados; o segundo arrastado pelas ruas e atirado ao fogo.

Dito isto, a eventual relação de Cirilo com o ocorrido continua a ser motivo de alguma controvérsia entre os historiadores. Embora Sócrates e Edward Gibbon afirmem que o episódio trouxe o próprio para a Igreja de Alexandria, não mencionam qualquer envolvimento direto do patriarca. O filósofo pagão Damáscio, por sua vez, atribui explicitamente o assassinato ao patriarca, que invejaria Hipátia. Contudo, a Enciclopédia Católica lembra que Damáscio escreveu cerca de um século depois dos fatos e que os seus escritos manifestam um certo pendor anticristão. As últimas pesquisas creem que o homicídio de Hipátia resultou do conflito de duas facções cristãs: uma mais moderada, ao lado de Orestes, e outra mais rígida, seguidora de Cirilo, responsável pelo ataque.

4 Presença de outras mulheres na filosofia

Também na Escola Pitagórica “ora integrada na sua vida particular (de Pitágoras), como esposa, ora simplesmente na vida da Escola, a presença marcante de uma mulher, Theano, que ocupou certamente um lugar de destaque nos primórdios do pitagorismo. É também interessante destacar que Jâmblico, no seu catálogo de pitagóricos ilustres, elenca não uma, mas dezessete mulheres, e isso dentre as mais célebres que aderiram à sua doutrina”.

5 Obras

Nenhum trabalho escrito, amplamente reconhecido pelos estudiosos como da própria Hipátia, sobreviveu até o presente momento. Muitas das obras comumente atribuídas a ela se acredita-se ter sido obra de colaboração com o seu pai, Téon de Alexandria, esse tipo de incerteza autoral é típico dos filósofos do sexo feminino na Antiguidade.

Uma lista parcial das obras de Hipátia, como mencionado por outros autores antigos e medievais ou como postulado por autores modernos:

  • Um comentário sobre o volume 13 Arithmetica de Diophantus.
  • Um comentário sobre Cônicos de Apolônio de Pérgamo.
  • Editou a versão existente da obra Almagesto de Ptolomeu.
  • Editou o comentário de seu pai sobre a obra Os Elementos de Euclides
  • Escreveu um texto “O Cânone Astronômico“.

Suas contribuições para a ciência incluem o mapeamento dos corpos celestes e supostamente a invenção do hidrômetro, utilizado para determinar a densidade relativa (ou massa específica) de líquidos. No entanto, o hidrômetro foi inventado antes de Hipátia e já era conhecido em seu tempo.

Seu aluno Sinésio, bispo de Cirene, escreveu-lhe uma carta descrevendo a construção de um astrolábio. A existência do astrolábio antecede Sinésio em pelo menos um século,e o pai de Hipátia ganhou fama por seu tratado sobre o assunto. No entanto, Sinésio afirmou que se tratava de um modelo melhorado.

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