Gestalt

Gestalt-Terapia, também conhecida como Terapia Gestalt, é uma abordagem psicológica, e que possui uma visão de homem e de mundo pautadas na doutrina holística, na fenomenologia e no existencialismo.

Gestalt

Revista “Gestalt”

Baseada no “aqui-e-agora”, a Gestalt-Terapia tem como foco levar as pessoas a restaurar o contato consigo, com os outros e com o mundo. Por ser considerada uma abordagem Humanista, acredita na capacidade do ser humano em se auto-realizar e de desenvolver seu potencial.

Foi co-fundada pelos então conhecidos como o “grupo dos sete”, tendo mais destaque entre eles Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman dentre os anos de 1940 a 1950. Está relacionada com a psicologia da gestalt, mas não é a mesma coisa.

Quando criada, havia uma divergência quanto ao nome que esta abordagem deveria ter, entre muitos nomes foram propostos: Terapia da Concentração, Terapia Integrativa, Psicanálise Existencial, até proporem Gestalt-Terapia que de início causou certo debate, mas que logo foi aceito.

Inicialmente baseada nas idéias da psicologia gestalt, a Gestalt-Terapia foi desenvolvida como modelo psicoterapêutico, sendo considerada uma teoria bem desenvolvida que combina abordagens Fenomenológicas, Existenciais, Dialógicas e da Teoria do Campo aliadas ao processo de transformação e crescimento humano.

Perls sempre frisou que a gestalt-terapia não era uma criação original sua, mas, pelo contrário, uma união de vários conhecimentos da área de psicologia, que ainda não haviam sido experimentados por ninguém. Cabe a Gestalt-Terapia a configuração destes conhecimentos, dando a eles uma abordagem própria.

Uma das grandes inovações da Gestalt-Terapia é o fato de compreender o ser humano como uma totalidade, rompendo com as psicoterapias tradicionais, a Gestalt vê o homem no físico, mental e psíquico. Estas são esferas indivisíveis e inter-relacionadas. Corpo e psiquismo são inseparáveis.

A Gestalt-Terapia pode ser utilizada no atendimento individual, de grupos, familiar, de casais, infantil e até em organizações. A visão holística que permeia o pensamento gestáltico possibilita a sua utilização em grupos. Fritz Perls costumava realizar Workshops com grupos e casais. O próprio Perls, certa vez, declarou preferir o atendimento em grupos ao atendimento individual, pela sua eficiência, e principalmente por poder colocar os clientes diante de situações onde estes poderiam ser mais espontâneos.

Os métodos e objetivos variam de acordo com os autores, para Perls o objetivo da terapia é saltar do apoio ambiental para o auto-suporte (self-suport). Em outro momento encontramos como objetivo da Gestalt-Terapia a Awareness. Awareness é uma palavra sem conceituação exata para o português, mas que pode convenientemente ser traduzida para “dar-se conta”, também sendo utilizada para conceituar o que muitos chamam continuum de consciência, para outros seria uma transcendência da consciência de si. Essa consciência refere-se a capacidade de aperceber-se do que se passa dentro de si e fora de si no momento presente, em nível corporal, mental e emocional.

Influências da gestalt-terapia

A Gestalt-terapia tem como base várias teorias do conhecimento humano, entre elas, as mais utilizadas por Fritz Perls, de acordo com Tellegen (1984, p.34) são: análise do caráter de Reich, a fenomenologia, a psicologia da Gestalt, a teoria organísmica de Kurt Goldstein, a filosofia existencial, zen budismo, a teoria do campo de Kurt Lewin e a Psicanálise. Esta última é interessante que seja ressaltado que Perls era psicanalista, em determinado momento admite o valor da pesquisa psicanalítica, afirmando: “Quase não existe uma esfera da atividade humana onde a investigação de Freud não tenha sido criativa, ou, pelo menos, estimuladora” (1969, p.13). Contudo, a fundamentação com a psicanálise deve ser vista com cuidado, pois Perls manteve ásperas relações com a psicanálise. Em certos momentos faz comentários sobre Freud e sua teoria.

“[…] Freud, suas teorias, sua influência são por demais importantes para mim. […] Fico profundamente abismado diante do que praticamente sozinho realizou, com instrumentos mentais inadequados de uma psicologia associacionista e uma filosofia de orientação macanicista. Sou profundamente grato por tudo que aprendi justamente ao me opor a ele.” (PERLS, 1979)

Nos escritos de Perls é comum encontrarmos referências à Alfred Adler e Harry Stack Sullivan, ambos influenciaram o pensamento de Fritz, principalmente, no que toca às questões referentes à auto-estima e auto-conceito.

Psicologia da Gestalt

Gestalt é uma palavra alemã. Existem diversas interpretações para o termo, uma, diz que pode ser considerada a psicologia da forma, outra, associa ao processo de surgimento de figura-fundo. O palavra adequada para designar a Gestalt seria dizer: “Gestaltung”, palavra que indica dar forma, ou seja, um processo, uma formação.

A concepção da psicologia da Gestalt, até então antiga, é a teoria sobre como o nosso campo perceptivo segue determinadas tendências sob a forma de conjuntos estruturados. A percepção estruturada se daria seguindo a tendência das linhas e das formas, destacando as figuras de seus fundos. Porém, não se pode reduzir os fenômenos somente ao que é percebido (ao campo perceptivo), pois deve-se levar em conta o todo sendo diferente da soma das partes. Ex: H2O. Sabemos que a fórmula da água é de duas partículas de Hidrogênio e uma de Oxigênio; no entanto não se consegue “fazer água” apenas juntando essas duas moléculas. Assim, “o todo é diferente da soma de suas partes”; influência também herdadas das psicologias de Kurt Lewin (teoria de campo) e Kurt Goldstein (teoria organísmica).

A principal queixa dos criadores da Gestalt, em relação, às psicoterapias tradicionais é o fato delas não compreenderem o ser como um todo. Quando se analisa um comportamento é preciso considerar o contexto, o que poderíamos chamar de espaço-tempo. Segundo GINGER: “uma parte num todo é algo bem diferente desta mesma parte isolada ou incluída num outro todo […] num jogo um grito é diferente de um grito numa rua deserta […]” (1995, p14).

A psicologia da Gestalt possibilitou a Perls estudar a hierarquia de necessidades. Ele dizia que uma Gestalt seria o processo de formação de uma necessidade em busca de sua satisfação. Então todo o organismo seria colocado a favor da Gestalt emergente (a figura que emerge de seu fundo). Um organismo sadio estaria atento ao surgimento de Gestalten e iria rumo a satisfação.

Um exemplo utilizado por Perls diz respeito a uma mãe com seu bebê recém nascido, que em meio a uma multidão de sons, sono e cansaço (fundo), acorda ao ouvir seu filho chorando (figura).

Para alguns teóricos, uma das maiores inovações da Gestalt-Terapia em relação a Psicologia da Gestalt, é o fato de ampliar o conceito de figura-fundo, antes visto apenas como parte do processo perceptivo, agora faz parte da motivação, esta associado ao processo de emergência das necessidades do organismo.

Teoria Organísmica de Kurt Goldstein

Uma das influências mais incisivas sobre a Gestalt-terapia é a teoria organísmica de Goldstein. Essa teoria deu base para que Fritz não fosse mecanicista ou associacionista.

A teoria organísmica é contrária às teorias associacionistas, que buscavam causa-efeito. Ela constituía-se basicamente pela busca entre as inter-relações existenciais entre os fenômenos, além, de analisar as funções psicológicas, mas o organismo como um todo.

“[…] ‘como’ um dado fenômeno é constituído, de que forma se tecem as inter-relações entre suas partes, ‘em função do quê’ se estrutura o todo de uma determinada maneira e não de outra. Como ocorrem mudanças nesta estruturação? Existe uma tendência direcional nestas mudanças?”‘ Tellegen (1984, p.38)

O modelo biológico utilizado por Goldstein, concebia um organismo como um sistema em equilíbrio e que qualquer necessidade causava um desequilíbrio que precisava ser corrigido. Perls associou a teoria organísmica junto às leis da psicologia da Gestalt, entre elas, a lei da “boa forma” (afirma que sempre predominará aquela configuração que mantiver estados mais harmoniosos), sendo assim, todo fato que altere esse equilíbrio, tornar-se-á evidente a tendência das partes em se re-organizarem e a energia em se re-distribuir de acordo com o campo.

Para Goldstein todo organismo tem uma tendência natural ao equilíbrio, ou seja, todo organismo possui em si a capacidade de se auto-regular, e se auto-realizar, há uma “sabedoria organísmica”, o organismo por si só pode atingir a saúde. Todo organismo auto-regulado busca sua satisfação, quando lhe é privada a satisfação o organismo busca outras formas para compensá-la.

A “patologia” aparece como uma forma de regulação, uma tentativa do organismo de se recuperar. O organismo age de acordo com as demandas ambientais.

De acordo com Lima “[…] o processo de busca de auto-atualização como um processo holisticamente natural do organismo, como uma potencialidade intrínseca do ser humano, Goldstein afirmava que quando o indivíduo apresentava respostas antagônicas ou desarmônicas a este princípio é por que este estava submetido a condições inadequadas de funcionamento.”

Humanismo, Fenomenologia e Existencialismo

A Gestalt se encontra dentro de uma das grandes correntes teóricas da Psicologia. O Humanismo é definido pela volta da Psicologia ao homem e às questões realmente humanas (amor, ódio, medo, solidão, saúde, beleza, virtude).

O humanismo busca trazer o homem e a sua história para o centro do debate, o homem torna-se senhor do seu tempo e do seu mundo.

Aqui é o homem é capaz de autogerir-se, autogovernar-se, busca sua autorrealização. O homem pode tomar posse do seu destino.

O homem é um completo vir-a-ser, nunca é algo estático ou estagnado, antes é um ser em constante transformação e mudança. Conceber o homem como um ser estático é não compreender o homem em sua essência.

O pensamento fenomenológico é essencial à compreensão da Gestalt-Terapia. A Gestalt-Terapia, antes de tudo, é uma terapia focada no óbvio, na única coisa que temos, o aqui-agora. Isso possibilita a GT a qualidade de terapia experiencial.

A fenomenologia propõe uma modelo de compreensão do mundo. Na fenomenologia estuda-se os fenômenos. Fenômeno esta relacionado com o que aparece, com manifestar-se. Uma característica essencial do pensamento fenomenológico é o fato das coisas terem um apelo interno para revelação, descoberta.

Então, partimos das coisas às coisas mesmas. A fenomenologia é o estudo das essências. Também encontramos no pensamento fenomenológico a noção de intencionalidade, para tudo que existe, há uma consciência para lhe atribuir significado. E que faz-se necessária a redução fenomenológica, onde o terapeuta precisa se livrar de todas as suas preconcepções, apenas para observar o fenômeno que ocorre diante de seus olhos, seu foco é a descrição fenomenológica.

Na redução fenomenológica é preciso abandonar de antemão teorias e explicações universais sobre o ser humano. Para o terapeuta o que lhe resta é a sua intuição, seu tato. Torna-se uma terapia onde o terapeuta é seu maior instrumento de trabalho.

A intencionalidade da consciência e a intuição fenomênica nos fazem questionar aos clientes a totalidade do que surge e como surge a sua consciência, “o que”, “como”, “para que” “qual o significado” compõem seu instrumental de perguntas, abandona-se o “por quê” e toda uma gama de explicações e interpretações.

A preponderância do “como” sobre os “porquês” nos permite compreender a estrutura subjacente aos fenômenos, e que relata a necessidade de se descrever o que acontece com o cliente no aqui-agora tendo como objetivo principal ampliar constantemente a consciência, na maneira como o cliente se comporta, e não a razão pelo qual ele age.

A Gestalt-Terapia tem dentre suas características recuperar o homem de sua alienação existencial. O existencialismo incide sobre o pensamento gestáltico trazendo o homem para o centro da sua singularidade, sua subjetividade é o ponto de equilíbrio, e na intersubjetividade que se faz humano.

Ao longo de suas obras, Perls demonstrou que o objetivo da terapia era fazer com que o cliente torna-se mais suportivo, responsável, consciente, capaz de realizar um bom contato, e que a cada sessão o cliente torna-se mais a si-mesmo.

A espécie humana é a única capaz de existir. Existência, que pode ser traduzida por: por para fora, projetar-se. Essa capacidade é caracteristicamente humana, só o ser humano transcende toda barreira, enquanto, outros seres seguem sua programação biológica, o homem se faz homem, se constrói com base na cultura, na história, e na sua própria individualidade.

O homem passa a ter objetivos, sua condição de existência passa a ser o seu potencial, este então passa a dar sentido para si. É o único que vive num constante devir (vir-à-ser). Tudo que este é ainda estar por se fazer. O homem é por si só uma obra inacabada, tendo seu projeto em suas próprias mãos. Antes de tudo, existência é possibilidade de se projetar, se construir.

Durante sua vida, o homem, perpassa por um meio social massacrante, devassalador, que destrói e corrompe suas potencialidades genuínas. O caminho da existência é áspero e cheio de pedras, para muitos a existência perde seu maior significado, perde-se o sentido, a sua realização passa a estar cada vez mais distante. O homem sem sentido de vida é incapaz de viver plenamente. Na existência humana, mergulhar nas trevas é parte da caminhada, no entanto, para sair das trevas é preciso encontrar o verdadeiro sentido de vida. Diante de sua capacidade de autorrealização, mesmo no deserto, a mais bela flor consegue florescer.

Contato

Em Gestalt-Terapia o contato é uma das maiores necessidades psicológicas do ser humano. Para definir contato precisamos compreender o conceito de fronteira. O homem vive em íntima e constante relação com o mundo que o cerca, existe uma fronteira entre o homem e o seu meio. Por mais que nós estejamos ligados ao mundo, temos uma separação, assim como nossas células em meio ao tecido se separam umas das outras por meio das membranas citoplasmáticas.

O ser humanos necessita do contato para obter elementos para sua satisfação, sem contato não obtemos nutrientes para sobrevivermos, o surgimento de uma gestalt e a sua realização dependem de um contato satisfatório com o mundo, se não a gestalt pode ser interrompida ou não satisfeita.

Costuma-se utilizar o exemplo de uma célula e sua membrana. Sabe-se que a célula realiza trocas constantes de moléculas com o seu meio externo e que é através da membrana e sua permeabilidade que a célula recebe nutrientes e expele substâncias. Sabemos que a célula vive em sucessivas e incessantes trocas, pois delas depende sua existência. Graças à permeabilidade da membrana a célula mantém-se em equilíbrio com seu meio externo.

A fronteira surge como algo dinâmico, fluido, e que se faz a medida que estamos em contato com as pessoas e o mundo. A fronteira é permeável e na medida em que estamos abertos ao mundo, ela tende a ser expandir e se tornar mais fluida, mas à medida que estamos com medo ou inibidos ela tende a se retrair, a se encolher.

Perls faz alusão às fronteiras geográficas dos países, os países que estão em paz, vivem com suas fronteiras abertas, onde o comércio, as pessoas podem entrar e sair livremente. Já os países em guerra costumam manter suas fronteiras fechadas, guarnecidas, cercadas rigidamente.

A fronteira e o contato, seguem um ciclo de contato-retração, há momentos de abertura e há momentos de retração, isso se faz graças a própria homeostase, a capacidade natural do organismo em entrar em contato em busca de satisfação, e se retirar quando satisfeito.

É na fronteira de contato que nos fazemos existir, manifestamos nossos pensamentos, nossas emoções, nós agimos na fronteira de contato…

Para o homem o contato é a passagem entre união e separação, a relação entre homem-mundo, que se dá através da fronteira, por onde obtemos o alimento psicológico, e também doamos de nós mesmos ao mundo, numa relação de troca vital onde ambos (homem-mundo) se transformam.

Várias teorias são utilizadas para fundamentar o conceito teórico de contato. Uma das mais aceitas no meio gestáltico é a Teoria Dialógica de Martin Buber.

A teoria de buberiana é pautada nas palavras-conceito EU-TU e EU-ISSO, essas são formas do homem vivenciar os relacionamentos, compondo assim uma intersubjetividade. Nos relacionamento EU-TU, há uma relação dialógica e que necessita de elementos existenciais: reciprocidade (pressupõe uma relação humana recíproca, onde ambos os sujeitos envolvidos no diálogo se reconhecem enquanto sujeitos), presença (o momento em que ambos estejam presentes na sua totalidade e na sua individualidade, reconhecendo o outro da relação), imediatez (é o aqui-e-agora da relação, não há nada para depois) e responsabilidade (como a habilidade de responder, ser capaz de assumir, estar presente).

Jorge Ponciano Ribeiro, teórico da Gestalt-Terapia no Brasil, cita um exemplo interessante em sua obra O Ciclo do Contato: na chuva, a água cai sobre o asfalto, ambos se tocam, não há contato, se houvesse contato, cita ele, ambos seriam transformados em sua natureza, o asfalto transformaria a água e, reciprocamente, a água transformaria o asfalto.

O contato por si só é transformador, a sua natureza possibilita a espontaneidade. A abertura a um contato satisfatório é elemento de cura na Gestalt-Terapia.

O Ciclo do Contato

O contato possui um funcionamento cíclico, que parte do contato à retração. No livro Perls, Goodman e Hefferline foram os primeiros a elaborar a forma como a energia do organismo se distribui ao longo do processo de satisfação de necessidades.

Uma teoria bastante aceita entre os gestaltistas é a de J. Zinker (1979), este define o o processo da seguinte forma:

  • Awareness (sensação): é o surgimento de impressões vagas, inquietude, que logo começa a se dar conta, passa a ter consciência, se a awareness se dá por completo o sujeito é capaz de identificar a sua necessidade dominante.
  • Energização/Ação: Nesta etapa o organismo convida seus músculos para a ação, há uma sensação crescente de energia, a awareness passa a ser organizada em prol de sua satisfação.
  • Contato: É nesse momento que se entra em contato com o que satisfará a necessidade, é o momento do encontro com a diferença (eu e não-eu), a transformação se dá, as figuras emergem de forma nítida.
  • Retirada / Conclusão: A necessidade foi satisfeita e o organismo se retira, neste momento há a resolução e o alívio, a energia começa a se retrair.
  • Retraimento: Aqui há o fechamento da gestalt, a energia se retrai totalmente, têm-se a sensação de dever cumprido.

O Ciclo Gestáltico reflete o funcionamento saudável do organismo. Durante o ciclo podem ocorrer interrupções e a energia pode ficar estagnada ou ser prolongada. Logo começam a surgir os distúrbios do contato.

Um grande avanço da Gestalt-Terapia, é o fato de compreender o indivíduo observando a forma como este se satisfaz, o estabelecimento do contato, seja com o meio, seja com pessoas é de suma importância no pensamento gestáltico.

A Neurose

Para a Gestalt-Terapia o indivíduo é uma totalidade, seu funcionamento básico gira em torno da sua auto-regulação organísmica. No pensamento gestáltico o indivíduo é um sistema em equilíbrio homeostático que esta em contato com um mundo circundante e que constantemente realiza trocas com o meio, ou seja, faz contato para satisfazer suas necessidades dominantes. A doença surge quando o sujeito não mais consegue identificar as necessidades dominantes e o seu organismo mesmo assim tenta restabelecer o equilíbrio perdido, as gestalts não resolvidas ficam pendentes e o equilíbrio fica prejudicado, os sintomas surgem como uma tentativa de re-organizar e assimilar as gestalts abertas, ou não satisfeitas.

De acordo com Ángeles Martín (2008) “o neurótico esta continuamente interrompendo o processo de formação e de eliminação de gestalts. Ele não percebe claramente quais e como são suas necessidades e suas emoções […]. Essa forma de agir o faz perder a oportunidade de completar suas gestalts e, portanto, satisfazer suas necessidades. Isto cria um contínuo estado de insatisfação. […] O Neurótico nem toma do ambiente aquilo de que precisa para manter seu equilíbrio e uma sobrevivência sadia, nem contribui para dar ao ambiente aquilo que dele reclama e que serviria para conformá-lo.”

Para que nós satisfaçamos nossas necessidades é necessário que tenhamos consciência das necessidades que surgem (processo de surgimento de gestaltens). Para a Gestalt-Terapia o neurótico é um indivíduo repleto de interrupções, que interrompe a si mesmo no processo de satisfação das próprias necessidades.

O indivíduo neurótico é antes de tudo fóbico, tem medo da dor e frustração, interrompe a si mesmo no processo de crescimento, as gestalts não resolvidos se acumulam e o protegem de estabelecer novos contatos com o mundo e as pessoas. Ele costuma estar confuso quanto ao que sente ou ao que faz, não reconhece quais são as suas reais necessidades.

Perls aponta que o neurótico possui um auto-conceito e uma auto-estima frágeis e para sustentar-se busca constantemente apoio ambiental, utilizando-se de manipulação e defesas estereotipadas para atingir sua satisfação, falta ao neurótico à assimilação das questões mal-resolvidas, o indivíduo passa a ser cheio de pontos cegos.

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Psicoterapia Gestaltista é uma teoria e um método psicoterápico desenvolvido pela psicoterapeuta brasileira Vera Felicidade de Almeida Campos. O termo foi utilizado pela primeira vez em língua portuguesa em seu livro Psicoterapia Gestaltista Conceituações, editado em 1972. Neste primeiro livro, desenvolve os conceitos fundamentais da teoria.

Vera Felicidade de Almeida Campos

A Psicoterapia Gestaltista, portanto, compreende:

  • um sistema teórico sobre o ser humano e seu comportamento e
  • um método psicoterápico

Criação

Vera Felicidade teve, desde a juventude, uma formação abrangente em filosofia e seus temas gerais, principalmente epistemologia, materialismo dialético, fenomenologia e existencialismo. Quando, em 1964, iniciou o curso de formação de psicólogo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já tinha experiência profissional com testes psicológicos, conhecia a psicanálise e iniciou intensas leituras de autores da Gestalt Psychology e suas experiências com percepção, pesquisas com as quais concordava completamente. Formou-se em Psicologia em 1968 sentindo-se insatisfeita com as abordagens na área de Psicologia Clínica, seja com as propostas behavioristas seja com as psicanalíticas, as duas correntes mais influentes da Psicologia. Consequentemente tinha uma crítica aos seguidores destas correntes, considerando-as incompatíveis com a Gestalt.

Os gestaltistas clássicos, de origem alemã, (Gestalt Psychology, Koffka, Koehler, Wertheimer e Kurt Lewin) dedicaram-se a extensas pesquisas sobre percepção, publicando em 1912 um trabalho sobre percepção visual, considerado marco inicial dos estudos de Gestalt. Seguem-se vários experimentos e publicações que foram em poucos anos interrompidas pelos acontecimentos políticos e grandes guerras na Europa. Os gestaltistas migraram para os Estados Unidos, mas a Gestalt teve pouca divulgação. A Gestalt Psychology é uma teoria psicológica, não é uma psicoterapia.

Vera Felicidade, no final dos anos sessenta, inicia o desenvolvimento de uma psicoterapia fundamentada nas pesquisas da Gestalt e não nas experiências da Psicanálise que era base teórica da maioria das psicoterapias. Denomina sua criação de Psicoterapia Gestaltista, e essa se constitui em um corpo teórico explicativo do homem e seu comportamento e em um método psicoterápico próprio, baseado no diálogo entre psicoterapeuta e cliente (terapia individual). As bases de sua teoria são a Fenomenologia de Edmund Husserl, a Gestalt (Gestalt Psychology) e o materialismo dialético. O marco fundador da Psicoterapia Gestaltista é o livro Psicoterapia Gestaltista Conceituações, que descreve as bases da teoria e da prática psicoterápica. A autora inicia perguntando-se o que é o ser humano?

Nas palavras de sua própria criadora, a Psicoterapia Gestaltista deveria responder as questões básicas do que é o ser humano, como ele se desenvolve; como fundamentar o trabalho de transformação, abertura e visualização de uma estrutura humana, de uma outra individualidade.

Neste primeiro livro, dedicou um capítulo à crítica ao conceito de inconsciente, dada a sua influência em praticamente todas as escolas da Psicologia Clínica, assim como nas Ciências Humanas em geral. O inconsciente é um conceito chave da Psicanálise em torno do qual desenvolve-se todo seu corpo teórico e prática terapêutica; influenciou inúmeras abordagens psicoterápicas como a Bioenergética, o Psicodrama, a Psicologia Analítica, a Gestalt Therapy, a Psicologia Transpessoal etc. Portanto, a Psicoterapia Gestaltista se diferencia e se constitui em antítese a todas as propostas psicoterápicas que incorporam o conceito de inconsciente. Esse diálogo crítico com as psicoterapias existentes à época era inevitável dada a originalidade da teoria proposta por Vera Felicidade para quem o ser humano não era um ser complexo a ser analisado, desvendado, mas sim um ser a ser conhecido, sem a priori.

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Conceituações

Alguns conceitos importantes da Psicoterapia Gestaltistas são: o ser humano é possibilidade de relacionamento, perceber é conhecer, problemas psicológicos são problemas perceptivos, autorreferenciamento, não aceitação etc.

Dualismo versus unidade

Observamos na Psicoterapia Gestaltista uma preocupação em resolver o dualismo característico do pensamento ocidental, encontrado nas inúmeras polaridades como: mente-corpo; sujeito-objeto; percepção-sensação; consciência-inconsciente; homem-mundo; interior-exterior; essência-aparência etc. Toda a obra de sua criadora expressa o enfrentamento do problema do dualismo em psicologia (principalmente no livro Terra e Ouro são Iguais), desenvolvendo um pensamento no qual é fundamental seu conceito de percepção como relação.

Perceber é conhecer

O conceito de percepção é de suma importância na Psicoterapia Gestaltista e pode servir como um fio condutor no seu estudo. Partindo do ponto onde os gestaltistas deixaram as pesquisas sobre percepção, partindo de suas afirmações de que a percepção das formas (gestalten) é instantânea, Vera Felicidade dinamiza esse conceito unitário dos gestaltistas sobre percepção, afirmando que perceber é conhecer, que perceber que se percebe é categorizar e que pensamentos são prolongamentos perceptivos. O desenvolvimento do conceito de percepção deixa claro que vida psicológica é vida perceptiva, estar vivo é perceber. As implicações dessas conceituações são fundamentais na sua obra, tanto na definição de ser humano quanto na psicoterapia; permite entender o ego como um sistema de referência, de arquivos vivenciais. Em seu quinto livro, continuando seus desenvolvimentos anteriores sobre percepção, ela diz que não existe mente, nem consciência, tais conceitos dicotomizam a totalidade ser-no-mundo; para ela o ser humano é uma totalidade, uma gestalt e é o estudo da percepção que permite entendê-lo; a trajetória humana pode ser expressa como: relacionamentos geram posicionamentos, geradores de novos relacionamentos, que por sua vez geram novos posicionamentos indefinidamente. Os problemas psicológicos se caracterizam pela quebra dessa dinâmica, pelo enrijecimento, pela coisificação, pela parada no posicionamento.

Autorreferenciamento e não aceitação

Toda percepção se dá em termos de Figura e Fundo, esse é o princípio básico dos gestaltistas que também dizem que sempre percebemos a Figura, o Fundo nunca é percebido mas existe uma reversibilidade entre Figura e Fundo: quando percebemos o Fundo, este vira Figura e vice-versa. A perda desta reversibilidade é uma das características do autorreferenciamento. Vera Felicidade desenvolve a noção de que a relação com o outro nos constitui e é o contexto no qual desenvolvemos aceitação ou não aceitação. Quando existe aceitação, existe disponibilidade, quando se desenvolve não aceitação, existe autorreferenciamento, problemas psicológicos.

O processo psicoterápico

Em Psicoterapia Gestaltista, mudando a percepção, muda-se o comportamento. De acordo com sua criadora, consegue-se isso pelo questionamento, pela reestruturação do campo estruturante dos problemas. Segundo a Psicoterapia Gestaltista, somos o que percebemos, o que a relação com o outro nos possibilita ser. Ao mudar quaisquer um destes referenciais, muda nossa percepção, nosso comportamento.

Tudo o que era explicado pelo inconsciente, pelos instintos, pelos traumas é explicado na Psicoterapia Gestaltista pela percepção, pelas dinâmicas relacionais. Por exemplo: não perceber o próprio problema não é porque o problema seja inconsciente, mas sim porque ele é o Fundo estruturante de todo o comportamento e o Fundo nunca é percebido (lei fundamental da percepção). O questionamento psicoterápico possibilita novas percepções, possibilita mudança.

Livros sobre Psicoterapia Gestaltista

  • Psicoterapia Gestaltista – Conceituações, Edição da Autora, Rio de Janeiro-RJ, 1972
  • Mudança e Psicoterapia Gestaltista, Zahar Editores, Rio de Janeiro-RJ, 1978
  • Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista, Editora Alhambra, Rio de Janeiro-RJ, 1983
  • Relacionamento – Trajetória do Humano, Edição da Autora, Salvador-BA, 1988
  • Terra e Ouro são Iguais – Percepção em Psicoterapia Gestaltista, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro-RJ, 1993
  • Desespero e Maldade – Estudos Perceptivos – Relação Figura/Fundo, Edição da Autora, Salvador-BA, 1999
  • A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu, Relume Dumará, Rio de Janeiro – RJ, 2002
  • Mãe Stella de Oxóssi – Perfil de uma Liderança Religiosa, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro-RJ, 2003
  • A realidade da ilusão, a ilusão da realidade, Relume Dumará, Rio de Janeiro – RJ, 2004

Fonte: Wikipédia

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